Daqui a seis anos, em 2030, 49% de toda a população brasileira estará dividida entre a Geração Z e a Geração Alfa. Boa parte dessa fatia populacional terá pouca ou nenhuma noção de como era a vida – e o modus operandi do Marketing – antes da Internet. E, claro, este crescente grupo social assumirá gradualmente o protagonismo no palco econômico nacional e se transformará no principal público-alvo de marcas e empresas que, por sua vez, deverão se esforçar para aprender a se comunicar com os consumidores do futuro.

Isso porque os “novatos” apresentam hábitos e padrões de consumo bastante diferentes em comparação às gerações mais antigas, e a digitalização da jornada de compras é o mais significativo deles. Cada vez mais difuso, o fenômeno faz com que marcas enfrentem dificuldades para serem vistas em um universo virtual marcado pela competição por uma fração de segundo da atenção do consumidor, que se vê bombardeado por estímulos publicitários cujos excessos não encontram precedentes.

Em vista disso, surge a pergunta: como conquistar o foco dos clientes na era do Marketing da atenção? A questão foi respondida por Fernando Moulin, professor na ESPM e partner da Sponsorb, durante o quarto episódio do Workshop Mundo do Marketing. “Quanto mais o tempo passa, mais fundamental é que nós, profissionais de Marketing, tenhamos competências digitais incorporadas em nossas empresas para que possamos falar a linguagem líquida das novas gerações”, começa.

O que há por trás das telas

O brasileiro comum passa, em média, 56,6% do tempo de atividade diária olhando para uma tela – televisões, tablets, celulares ou notebooks – conforme apontam os dados de uma pesquisa divulgada pela Electronics Hub. O tempo gasto com eletrônicos coloca o Brasil na 2ª colocação no ranking de maior tempo de tela entre todos os países do globo – e este não é, necessariamente, um pódio a ser celebrado.

Naturalmente, a atração exercida pelos dispositivos eletrônicos pode e deve ser utilizada de forma estratégica pelo Marketing na era pós-digital, “Vivemos um momento de customização total. Temos assistentes virtuais e logo teremos automação em qualquer coisa em qualquer lugar. Isso nos levará a uma omnilife, uma vida híbrida entre o físico e o digital. E se essa personalização será extrema, o desafio de capturar a atenção e aumentar a relevância para vender novos produtos e serviços será ainda maior”, narra Moulin.

Por outro lado, atuando como portais para a propaganda mesmo durante momentos de lazer, como sessões de filmes, games ou leitura, os dispositivos digitais estão diretamente ligados à gênese de chagas cada vez mais comuns aos frequentantes de espaços virtuais. “Ansiedade, estafa e outros cenários nocivos à saúde mental são alimentados pelo excesso de estímulos, e o público com o qual nos comunicamos está cada vez mais ciente disso. Portanto, é importante que as marcas também se conscientizem sobre os problemas para que possam fazer um Marketing igualmente consciente”, exorta o professor.

A era da assistência

A digitalização do cotidiano empodera novas e velhas gerações com a possibilidade de escolha. Neste contexto, marcas que insistem em incomodar os clientes com tentativas exageradas de comunicação tendem a ser ignoradas e esquecidas, enquanto as empresas que adotam abordagens dedicadas à assistência podem sair na frente na disputa pela atenção do público-alvo. “Os clientes querem receber informações na hora que quiserem e do jeito que quiserem, sem serem interrompidas ou incomodadas ao longo do dia. Por isso, nesta era, as estratégias de Marketing precisam ter um vínculo profundo com a geração de valor”, explica Moulin.

Este empoderamento, pautado pela busca de informações, traz grande valor estratégico à criação de conteúdos desenhados para educar o consumidor sobre os benefícios obtidos ao dar um voto de confiança a um produto ou serviço. “Na era da atenção, marcas precisam investir em conteúdo porque as pessoas querem estar bem informadas. É preciso criar conteúdo útil para que elas possam enxergar o valor da mensagem, assimilá-la e, então, tomar uma decisão de favorecer a marca. Doar antes de receber é um passo muito importante”, aprofunda o professor.

Associada à produção de conteúdo, marcas precisam desenvolver formas assertivas de fazer com que os clientes saibam que, a qualquer momento, quando lhes for conveniente, poderão buscar seus serviços e quaisquer problemas ou dores enfrentadas serão solucionados. “Essa disponibilidade faz com que o cliente tire uma marca de um lugar comum e a considere como algo próximo da vida dele. A Apple é uma marca muito forte nesse quesito, e é até hoje amada e idolatrada por ter criado um conjunto de soluções integradas muito fácil de ser utilizado”, prossegue.

A definição do que é gerar valor de forma eficiente passa, também, pela percepção social da importância do tempo, moeda cada vez mais valiosa para marcas e consumidores. “Empresas que conseguem ajudar as pessoas a usar melhor o seu tempo, a terem mais indulgência e mais momentos de qualidade, estão ocupando a preferência do consumidor. Quanto mais nós poupamos o tempo das pessoas oferecendo conveniência, mais conversão e mais resultados teremos”, finaliza.

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Fernando Moulin Workshop Mundo do Marketing