Uma reflexão sobre alimentação, casa e família durante o período de distanciamento social Bruno Mello 17 de agosto de 2021

Uma reflexão sobre alimentação, casa e família durante o período de distanciamento social

         

Tempo em casa virou um recurso abundante... para arriscar na cozinha!

Uma reflexão sobre alimentação, casa e família durante o período de distanciamento social
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Durante o período de férias escolares e frente a um convite para participar de uma roda de conversa, aproveitei para fazer uma reflexão sobre alimentação, casa e família durante o período de distanciamento social.

Organizei esse texto em 5 tempos:
1 – A alimentação na Pandemia pelos Institutos de Pesquisa
2 – A alimentação na Pandemia pela minha experiência profissional
3 – A alimentação na Pandemia pela experiência pessoal
4 – Uma breve reflexão sobre a alimentação com lente teórica
5 – Fechamento

1 – A alimentação na Pandemia pelos Institutos de Pesquisa

Olhando para estatísticas dos institutos de pesquisa e para os relatórios das consultorias fica claro que com a pandemia, as pessoas passaram a comer mais em casa.
Segundo relatório da Kantar, “como o COVID 19 mudou a forma de consumo fora de casa”, o consumo mundial de snacks e bebidas não alcoólicas fora de casa caiu 26% durante o isolamento social. No Brasil, o consumo de snacks e bebidas fora de casa caiu 16%. No mesmo período, o consumo em casa cresceu 12%.  Olhando para alimentos, o crescimento do consumo em casa compensou a queda do consumo fora de casa.

O reflexo disso é que os serviços de alimentação estão sofrendo muito. Segundo uma pesquisa realizada com 460 donos de serviços de alimentação pela consultoria Galunion, 87% dos estabelecimentos tiveram redução das vendas e 60% declaram uma queda superior a 51% nas vendas. Muitos ainda não operavam com serviços de entrega por aplicativo e passaram a fazê-lo durante a pandemia, simplificando seus cardápios e investindo mais em embalagens para proporcionar uma experiência melhor para as pessoas comerem em suas casas. A experiência hoje de delivery está infinitamente melhor, seja em tempo de entrega, seja em integridade da comida, seja no capricho da embalagem.

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Segundo a Mintel, com o fim do auxílio emergencial e a alta dos preços, o consumo de delivery caiu em relação ao primeiro momento da pandemia. As pessoas estão buscando lembranças de uma vida mais tranquila e segura, buscando sabores de infância e experiências nostálgicas. Vemos as marcas tradicionais crescendo em detrimento das novas, por exemplo, Piraque fez uma campanha enaltecendo sua tradição assinando com “criação original Piraque” e, Nestle fez uma coleção de latas de Leite Moça celebrando os 100 anos da marca.

Quando pensamos em embalagens, vivemos paradoxos. Se por um lado as pessoas buscam mais embalagens “higienizáveis”, com acabamento plastificado para poderem passar álcool, ou sacolas dentro de sacolas, por outro, ficando mais em casa, as pessoas também passaram a se relacionar mais com seus lixos. Com a persistência do isolamento, as pessoas estão começando a ter contato com o grande volume de embalagens descartadas e começam a buscar embalagens mais sustentáveis e separar mais seus lixos.

Mais um paradoxo: ao mesmo tempo que as pessoas buscam alimentos mais saudáveis e naturais, as mesmas pessoas também buscam maior indulgência e explosão de sabores. Vimos a regra do equilíbrio e da compensação na prática. De certa forma, buscamos um equilíbrio, pelo menos na consciência.

– Comer uma pizza com tudo em cima na sexta e almoçar uma saladinha no sábado.
– Fazer um pão caseiro com só 4 ingredientes e depois beber 2 litros de refrigerante.
– Tomar uma Kombucha artesanal acompanhando um Doritos queijo nacho.
– Uma costelinha no Outback inteira no almoço e um misoshiro no jantar.
– Tem gente que come quinoa durante a semana para comer só bacon no final de semana (bacon é vida).

As pessoas estão passando mais tempo cozinhando. O cozinhar mudou não só em frequência como também em variedade. Mais do que isso, mais gente começou a cozinhar na casa.

2 – A alimentação na Pandemia pela minha experiência profissional

Eu estou falando em nome de pesquisa, mas poderia falar da minha experiencia. Além de lecionar na FIA e na ESPM, eu sou executivo de Marketing em uma empresa de alimentação que trabalha com três unidades de negócios bem definidas: uma atende indústrias que produzem seus alimentos para venda no varejo, uma atende serviços de alimentação (padarias, por exemplo) e a terceira é responsável pela gestão de produtos para o consumo em casa com venda em varejo.

Olhando por essa perspectiva ficou muito evidente como ao longo do distanciamento social o consumo caiu drasticamente nos serviços de alimentação e cresceu no varejo num primeiro momento da pandemia.

Depois, ao longo do tempo, vimos o movimento dos serviços de alimentação crescendo lentamente e a venda de varejo voltando ao normal, mas ainda ficando acima do patamar pré-distanciamento social.

Eu trabalho com Fermento e posso dizer que vivemos uma PÃODEMIA: no mundo inteiro as pessoas fechadas em casa começaram a fazer pão. No ano passado, num dado momento, faltou fermento no mundo! No Brasil, antes da pandemia, 25% dos lares faziam pão. Durante o distanciamento esse número subiu para 80%. Todo mundo fez ou conhece alguém que fez pão no distanciamento. Fez e postou… se não postar não conta. ????

O que acontecia antes: quem não fazia pão tinha 2 medos para fazer pão:

– a sensação que leva muito tempo e
– a sensação que deveria ser muito difícil.

Tempo em casa virou um recurso abundante… e quanto a ter medo, as pessoas começaram a ver a amiga postando foto de pão, o tio, o irmão … ai dá vontade de arriscar e… deu pão. Tem até meme que dizia que se você ainda não fez pão e bolo na pandemia, você não está fazendo distanciamento direito! PÃODEMIA.

Eu também trabalho com Chantilly. E Chantilly está ligado a doce, mas está muito ligado a festa.

O começo do distanciamento foi tenso, as famílias ficavam fechadas em casa somente com seu núcleo primário. Mae, pai e filhos. Se lembram da Páscoa do ano passado? foi uma Páscoa triste, sem ver irmãos, pais, primos. No começo da pandemia a venda de Chantilly despencou. Ninguém fazia festinha.

Depois, num segundo momento, a venda começou a migrar das lojas de festa (onde os profissionais de confeitaria compram) para os supermercados (onde os confeiteiros amadores compram). Ao invés de grandes festas, as famílias começaram a celebrar mais coisas com menos gente. De grandes eventos a celebração das pequenas coisas boas do dia a dia em família em casa.

3 – A alimentação na Pandemia pela experiência pessoal

Falando da minha família. Todo mundo em casa desde março de 2020. Eu virei o louco do pão. A cada 15 dias faço pão e congelo. Também voltei a fazer linguiça.
Minha esposa cozinhava muito pouco e hoje é chef. Não tem coisa que ela não tenha se proposto a fazer que não deu certo. E ainda cria um momento de recreação com a meninas fazendo cookie, panqueca e bolo. Para minha esposa, o cozinhar com as meninas é uma alternativa às TV ou ao Sammy Slime do youtube.

O meu cunhado trabalha com eventos. Ele se empolgou no pão, foi para pizza e depois começou a vender pizza congelada. Como trabalha com eventos e quando tudo parou, precisava arrumar uma distração e, se possível, uma renda extra. Para ele, fazer pizza era uma coisa social: envolvia entrar em contato com os amigos, pegar pedido, fazer as pizzas e depois entregar de casa em casa e trocar uma ideia rápida na calçada. O fazer pizza para vender, além da terapia e da renda, era uma desculpa para sair de casa e ver gente querida.

 

O cozinhar foi muito além da obrigação e virou um hobby, uma terapia, um prazer. O cozinhar virou um tempo consigo e uma demonstração de cuidado com a família. Esse cozinhar é fruto de um reencontro com a casa e a com família.

4 – Uma breve reflexão sobre a alimentação com lente teórica

Apresentando uma breve lente teórica, gostaria de apresentar os conceitos de Megatendência, tendência e modismo.
•    Megatendência – Uma mega tendência é uma “grande mudança social, econômica, política ou tecnológica que se forma lentamente e, uma vez estabelecida, passa a nos influenciar por algum tempo – dez anos , no mínimo”. (Kotler &Keller, 2019, p. 78).
•    Tendência – Uma tendência “é um direcionamento ou uma sequência de eventos com certa força e estabilidade, mais previsível e duradoura que um modismo”. (Kotler &Keller, 2019, p. 78).
•    Modismo – Um modismo é algo “imprevisível, de curta duração e não tem significado social, econômico e político” (Kotler &Keller, 2019, p. 78). Pulseira da Jade (Giovana Antonelle), paleta mexicana, live Sertaneja no começo do distanciamento, ultima dancinha de um TikToker, rotular de cringe.

Olhando para o começo do distanciamento vemos que vivemos muitos modismos. Qualquer coisa era motivo para jantar especial, pedir um jantar caro, tomar um vinho, abrir uma cerveja (ou duas). Descobrimos a cozinha de casa e ao mesmo tempo, e descobrimos as pessoas que moravam conosco. Para alguns foi uma segunda lua de mel, para outro foi insuportável, virando separação. Baixamos aplicativos de delivery e de supermercado. Descobrimos os vizinhos cozinheiros e vimos pais e avós aprendendo a usar smartphone para falar com as crianças. Arriscamos cursos online e vimos que o ensino EAD tem um baita valor.

Beber vinho, cozinhar e ver live sertaneja… esse foi o começo da pandemia. Nos desafiamos e aprendemos a aprender.

Quando o fogo de palha passou, começamos a encontrar o equilíbrio e cortar os excessos. Entendemos que não seria 15 dias…nem 30 dias…e não dava para viver em piração hedônica, não dava para viver vida de Baco, por tanto tempo. Também começamos a entender que precisávamos fazer coisas pela família, fazer coisas para a família e buscar algo por nós sem a família. A cozinha entrou nesses 3 momentos, com a comida tarefa, a comida amor e a comida terapia.
Para alguns, a casa ficou pequena. O morar grande ficou mais importante que o morar perto. A noção de perto perdeu significado pois ficamos a um wifi de distância do trabalho e da escola. De certa forma, parece o território ideal para o ócio criativo. Estamos vivendo, trabalhando, estudando e nos divertindo no mesmo lugar. Se estiver conseguindo estudar, trabalhar e nos divertir.

No ponto que estamos hoje, é possível ver que a euforia do home office e do descobrir a casa já passou. Muitos modismos passaram.

Como preconizado pelo Malcolm Gladwell, pai do cool hunting e autor do livro “O ponto da virada”, vimos que o distanciamento acelerou em muito algumas tendencias que já estavam alicerçadas por macrotendências.

As mega tendências já estavam aí: a população envelhecendo, a tecnologia de informação e comunicação evoluindo cada vez mais rápido, os recursos naturais sendo esgotados, as pessoas com suas vidas superexpostas pelo big brother de 1984, information overload (temos mais informação que conseguimos digerir), ansiedade e frustração, polarização política e a intolerância crescendo de forma intolerável. Cansadas disso tudo, as pessoas já começavam a se voltar para suas casas em busca de amparo e segurança. Tudo isso já estava crescendo antes do distanciamento.

Com o distanciamento, vimos o acelerar do cozinhar, da preocupação com embalagens, da preocupação com alimentação mais saudável, mas ainda com a compensação de frustrações com permissividade alimentar, o aumento da adoção de serviço de streaming e de entregas, o consumo nostálgico como espaço seguro. A cozinha voltou a ser um ponto central das casas. O novo cozinhar virou uma atividade familiar e social, mais democrática e inclusiva. E o comer, o comer ganha cada dia mais consciência.

5 – Para finalizar.

Para finalizar, precisamos ser justos com aqueles que viveram a pandemia sem distanciamento social. Esse texto não representa a realidade de muitas pessoas que, mesmo com medo, não tiveram a opção de ficar em casa. Existe muita gente que saiu de casa e se afastou da família durante a pandemia. Existe muita gente que saiu e não voltou mais.

No começo da pandemia, muita gente foi para as fábricas produzir os alimentos que nós consumimos. Os promotores e repositores de supermercado iam para as lojas repor os alimentos nas gôndolas e encontravam os restaurantes e refeitórios fechados. O chapa, o chef, o cozinheiro e entregador. Para nós comermos, eles se expuseram.

No primeiro momento do isolamento, antes dos iFoods se estruturarem, os entregadores eram criticados por demorarem na entrega da nossa comida.  O “Matheus do condomínio” tentou humilhar o “Matheus entregador”, e no final, fez uma bem para a categoria ao convidar a sociedade a olhar os entregadores com mais humanidade e empatia. Privilegiado os que puderam ficar em casa com as famílias.

Difícil separar a alimentação – família – casa numa reflexão sobre a pandemia. Acho o reencontro que estamos promovendo é com a consciência. Consciência sobre alimentação, sobre as relações familiares e sobre o viver em conjunto. Espero que quando voltarmos a sair de casa não percamos a consciência sobre a família e alimentação. Também espero que quando voltarmos a sair de casa, não esqueçamos a admiração por aqueles que saíram por nós.

E você, sobre o que tem refletido sobre a vida nesse momento de distanciamento social?


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