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Mercado

Como a pandemia fomentou a Transformação Digital na Moda

Setor, composto em sua maioria por microempresários, precisou evoluir rapidamente sua presença online para não viver uma derrocada. Gestão ainda é feita sem profissionais especializados

Por Priscilla Oliveira - 20/07/2020

Verônica Couto, Analista de Competitividade do SebraeO anúncio de uma pandemia escancarou diversas lacunas no mercado mundial. Uma delas foi a da falta de presença digital das empresas de vestuário – que são, em sua maioria, compostas por pequenos e médios empresários. Para não terem que fechar as portas e amargar um prejuízo incalculável ao setor, diversos gestores buscaram se atualizar e entrar no ambiente online. A transformação digital na indústria da Moda tardou, mas chegou trazendo grandes lições ao empresariado.

O pequeno varejo, como um todo, sempre esteve muito distante da internet, principalmente o de roupas. Quase 90% dos pequenos empreendimentos não possuíam presença digital, segundo dados recentes levantados pelo IEMI – Inteligência de Mercado. O fechamento das lojas apenas antecipou a necessidade destes varejistas em atualizar-se. De acordo com o Sebrae, o varejo brasileiro é dominado pelos pequenos estabelecimentos: empresas de pequeno porte somam um total de 13 milhões, que empregam 21,5 milhões de pessoas e um total de salário de mais de R$ 611 bilhões anuais. Em função do menor capital, esses negócios estão muito vulneráveis neste momento.

A orientação do Sebrae foi de não haver demissões e investirem nas redes sociais para tentar manter, pelo menos, o mínimo de vendas enquanto a situação econômica não melhora. “As PMEs não possuem um colchão robusto financeiro, porque muitas estão com problemas de gestão financeira grave. Esse é um empreendedor muito focado em curto prazo e sem a alfabetização digital. Para ele, vendendo o que vendia na loja física era suficiente, mas o isolamento social mostrou que apenas isso não era mais suficiente”, conta Verônica Couto, Analista de Competitividade do Sebrae, em entrevista ao Mundo do Marketing.

Canais de venda

A quarentena intermitente e a incerteza de abertura de comércio atrapalharam esses pequenos lojistas, mas os motivou a correr atrás de inovações. Hoje, o empreendedor que não possuía contato com digital passou a ter e estar presente nas redes sociais ou ainda criou site próprio. Há ainda os que se inseriram em marketplace (inclusive os próprios do setor de moda) ou pelo Instagram fazendo venda direta. Investir na rede de Mark Zuckeberg vem sendo a orientação do Sebrae, por ser mais simples, envolver menos negociações e contratos e recursos financeiros para esse lojista se inserir no mundo online.

Isso porque ele mesmo pode gerir suas redes e alocar pessoas da força de venda para fazer uma gestão de aproximação da carteira de clientes usando Whatsapp ou Instagram. “A maior parte do segmento de moda já está inserido nas redes sociais e utilizando venda direta, eles são MEI, pessoas que fazem compras em atacado e fazem venda direta. Já era algo importante e se tornou mais ainda e se tornará cada vez mais fundamental para existência do negócio. Isso expande as capacidades do empreendedor. Temos relatos de empreendedores que começaram a exportar agora na pandemia porque ganhou visibilidade por meio do Instagram”, conta a analista.

O portal Sebrae obteve mais atendimento em maio do que o ano anterior inteiro, assim como recordes nas inscrições de cursos online. “Foi um momento em que as PMEs pararam e repensaram como estavam lidando com o negócio. Eles precisaram viver isso para reorganizar os investimentos. A gestão financeira e de pessoas é onde vimos mais necessidade, não só na categoria de moda, mas em todas as outras. É um empresariado muito assoberbado. Ele faz tudo, cuida de tudo e não tem tempo de cuidar de detalhes importantes”, afirma.

O interesse dos empreendedores em buscar a transformação digital fez com que o setor evoluísse 50 anos em cinco dias, segundo Verônica. Dentre as ações que o Sebrae vem fazendo para auxiliar o PME estão uma aproximação com as plataformas Privalia e e Dafiti, que cederam espaço para que o microempreendedor venda seus produtos e ganhe mais visibilidade. Além disso, são levadas pautas ao governo como a liberação de crédito. “Não tivemos sensibilização por parte dos bancos, que não deram esse acesso, infelizmente”, afirma.

Transformação Digital

A indústria da Moda até 2019 era uma. Em 2020 surgiu uma nova a partir do comportamento do empresariado, que precisou mudar toda sua visão do negócio. Ele agia como uma aposta e não como um investimento. “O digital não era algo relevante e esse gestor sequer tirava um tempo para se profissionalizar nisso, porque o varejo físico dava garantias. Somado a isso surge que esse empreendedor faz tudo: a compra, a gestão de pessoas, a administração, a logística, às vezes é quem vende, então ele não tempo. Não era falta de querer, mas postergou até que uma situação como esta obriga a agir senão as contas não são pagas”, pontua Verônica.

O maior desafio, no entanto, é fazer a gestão em digital e ter conhecimento das ferramentas corretas, porque geralmente é o dono ou alguém da equipe que cuida da presença na internet, poucos terceirizam com um profissional porque envolve um custo que ele não está preparado. Muitos não possuem conhecimento nenhum no online, a alfabetização é importante e é um dos pontos que o Sebrae atua. Caso a intenção seja vender exclusivamente na web e existir uma estratégia forte, a contratação de uma pessoa especializada é recomendada.

Para a maioria, um impulsionamento de R$ 20,00 traz o resultado desejado. “Para o PME vender nas redes sociais basta ele pagar um pouco que já ganha uma visibilidade boa para ele. Ele pode vender 50% a menos que na loja, que já estará movimentando o caixa. Porém esse impulsionamento precisa ser feito com cautela, depois que o orgânico tiver construído, um perfil com informação relevante”, avalia a analista do Sebrae.

As mudanças no setor estão apenas no início e impactarão diversos nichos dentro da Moda, porém com os investimentos no digital, esse impacto deverá ser menor. “O atendimento continua sendo importante, mas ele hoje precisa que seja excelente nos canais online para que o cliente continue voltando a comprar. Minha dica é que os empreendedores não caiam na pandemia do medo e sim na da oportunidade, porque tudo isso passará e o que foi feito até aqui fará a diferença”, conclui Verônica.

Acesse o estudo Cenário do mercado da Moda pós pandemia – conteúdo exclusivo para assinantes.