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Mercado

"O supermercado é essencial, mas o consumo mudará" afirma superintendente da APAS

Carlos Correa avalia cenário de apatia política diante da pandemia que poderá impactar no consumo do brasileiro. Resposta rápida do setor é fundamental nesse momento

Por Priscilla Oliveira - 04/06/2020

Carlos Corrêa, Superintendente da APASO anúncio de uma pandemia em pleno momento de instabilidade econômica e política deixou os brasileiros ainda mais receosos. A rapidez com que as empresas agiram, no entanto, foi positivo ao mercado, mas não suficiente para fazer com que os números da economia avancem. Com o aumento do desemprego, redução de salários e menos pessoas nas ruas, menos vendas são feitas e, consequentemente, mais lojas são fechadas. Mesmo os supermercados, tidos como essenciais, não passarão incólumes deste momento.

Em janeiro deste ano, a Associação Paulista de Supermercados (APAS) projetava que o crescimento do setor varejista alimentar no estado deveria variar entre 2% e 2,44%, maior valor dos últimos cinco anos. A expectativa de um PIB melhor moveu esses dados, porém após o surto de Covid-19 em todo o mundo, o mercado financeiro passou a projetar uma queda de 5,89% para o PIB em 2020.

Esses números avaliam a questão como global, já que o mundo inteiro deverá viver uma recessão. Porém, no Brasil, o impacto pode ser maior por causa dos constantes impasses políticos. “Se continuarmos nesse modelo de destruição que estamos vendo na política, sabe-se lá como terminaremos o ano. Sem o auxílio do governo federal as pessoas não têm como consumir e isso afeta diretamente nosso setor. O supermercado é essencial, mas o consumo mudará. É uma tragédia que estamos esperando no setor, porque as pessoas ainda estão recebendo algo, mas não sabemos até quando”, aponta Carlos Corrêa, Superintendente da APAS, em entrevista ao Mundo do Marketing.

Atenção à operação e caixa

Em uma crise financeira, as pessoas mudam os produtos e marcas preferidas, além de haver redução de consumo. As empresas mais antenadas já estão trabalhando com esta projeção para evitar perdas. Isso porque, fundamentalmente, é preciso focar no atendimento ao cliente e analisar o caixa da loja, para transitar nesse período difícil. As pessoas tendem a comprar itens básicos em quantidades menores, além de haver uma tendência a perder margem operacional – seja porque há um novo processo de protocolo de higiene, que exige outro funcionário para passar álcool ou por instalação de acrílico no checkout.

A mudança nos custos para manter operação exige uma análise de estoque para adaptar o sortimento menor para sustentar o caixa, porque o momento de grandes compras e volumes está baixando. A fase de corrida às compras por medo de desabastecimento agora é substituída pela cautela nos gastos.

Apesar de todas as projeções negativas, a resposta das companhias vem sendo positiva e trazendo inovações. “Vencida a etapa de abastecimento, que o setor conseguiu superar junto a indústria, houve confiança. Vivemos isso melhor que outros países. Não sofremos com a falta de produtos. O que houve foi uma demanda alta em pouco tempo que pegou a indústria de surpresa, mas os empresários correram atrás de suprir. Analisando, parece que faz um tempo gigantesco que vivemos esse marco zero das compras e tem pouco mais de 30 dias”, reflete Carlos Corrêa.

Leia também: O impacto da pandemia em 12 setores

Análise por categoria

A pandemia trouxe inovações e grandes avanços ao setor supermercadista, principalmente na atuação no e-commerce.  “Foi escancarada a lacuna do setor. Corremos cinco anos em 40 dias, todas as nossas projeções de investimento passaram a ser agora. O setor amadureceu muito em pouco tempo. Não dá mais para nenhuma empresa ficar de fora da revolução digital”, afirma o superintendente da Apas.

Veja algumas análises do setor feitas pelo especialista:

Inovação: “Há ainda muitos pontos de melhoria de operação, não são pontos complexos, são simples como redução de filas ou atendimento online que retire na loja. Estamos falando de controle de compras em determinados totens de supermercado, como por exemplo frios, que ao invés de esperar ser atendido usa-se uma máquina para pedir a quantidade que quiser e que libera o consumidor para seguir fazendo suas compras. Quando ele acabar ou puder, ele volta para retirar esse pedido. Isso não exige muito investimento. Vai além do caixa express, que a pessoa escolhe horário que quer passar as compras. O grande desafio é fazer com que este caixa não exista. Não adianta ter a pessoa do caixa prestando serviço e dando assistência, mas não ter o ponto do pagamento moderno. A partir de hoje. Seria essencial a opção de nem precisar tirar do carrinho. A pandemia trará essa neura de proximidade por pegar um produto e passar a outro. É preciso reduzir essa manipulação de itens” afirma Carlos.

SelfCheckout: “Dois pontos atrapalham a implantação desse sistema no Brasil. O primeiro é o custo, o segundo é a cultura do consumidor, porque para fazer isso é necessário ensinar o cliente como funciona a máquina no momento inicial. No segundo instante temos a necessidade de controle, porque pode ser um ponto de perda operacional. A prevenção de perdas precisa ver como funciona isso em determinados supermercados. Os custos tarifários de importação de produtos também são uma barreira. Essa evolução não é permitida porque a etiqueta eletrônica precisa ser a mesma para todos e hoje existe uma variação. Se houver uma falha na etiqueta atrapalha a entrega para o consumidor. Isso ainda está parado esperando uma tecnologia melhor e uma implantação sem falha entre o preço do caixa e da gôndola”, aponta.

E-commerce: “Havia um trabalho crescente que estava sendo desenvolvido, mas também tinha a questão de amadurecimento do consumidor de querer usar a ferramenta. Precisava haver uma melhoria para dar mais usabilidade e motivação ao usuário. Além disso, o supermercado de vizinhança trazia mais comodidade, era mais fácil ir ao mercado perto de casa. A dificuldade de integração de sistemas era latente – comprar na internet e tirar na loja ou ter o delivery sendo feito corretamente. Eram pontuais as empresas que ofereciam isso. Por causa da pandemia houve uma correria a esse formato de loja e os supermercadistas não estavam prontos para essa demanda. A entrega rápida se tornou necessária e então viu-se a questão de trabalhar melhor a logística. Quem estava fora do e-commerce quis entrar; e os que já estavam, passaram a fazer direito sem o consumidor sentir a diferença. Analisa o superintendente da APAS.

Supermercado online: “Não acredito que supermercados exclusivos na internet tenham alguma vantagem. A figura da loja física continua na mente do consumidor, ele confia mais no e-commerce aliado a uma unidade física, por uma questão de confiança e desconhecimento. Os de classe mais alta são os que testarão mais essa ferramenta, mas o que possuem o dinheiro contado buscarão nomes tradicionais – tanto em marca quanto varejo. O consumidor espera a marca consolidar para passar a comprar com ela, ele espera ouvir boas referências. Este momento ajuda muito que o consumidor reflita e esteja flexível a adotar esses entrantes”, afirma.

PMEs: “Eles tendem a buscar plataformas conjuntas, já que não possuem condições de buscar algo só deles. Eles tendem a contratar um marketplace que leva em conta o CEP dele, as lojas da redondeza. Esse microempresário não possui o e-commerce exclusivo, mas tem condição de ingressar nesses coletivos, além de ter condição de entrar em aplicativos de logística - que cobram taxas altas, mas não gastam com um investimento inicial de ferramenta. Essa é uma maneira desse gestor se manter. Houve entrantes nessa área de aplicativos aproveitando o momento de quando aplicativos tradicionais passaram a não dar conta” conta Carlos Corrêa.

Startups de delivery: “Elas vêm aproveitando as lacunas do setor. É muito mais que investimento. Elas possuem a vantagem de chegar no pequeno supermercado, que espera o aperto para agir. Isso porque o pequeno empresário é voltado a demanda do consumidor. A possibilidade de inovação dele é muito pequena por conta dele não dar conta do abastecer e atender. Como ele não tem grandes estruturas profissionalizadas, ele tende a ser reativo. Aquele atendimento próximo dá o que ele precisava, em algum momento aconteceria a transformação digital, mas sempre haverá o que prefere ir à loja e comprar e isso suprirá o desejo desse pequeno gestor. Isso mudou. Nada substitui contato com pessoas, mas torna-se uma alternativa e as startups estão crescendo com o amadurecimento desse tipo de gestor”, afirma Corrêa.

Aplicativos: “É preciso que essas ferramentas tenham a mesma comunicação das lojas. Além disso, essa ferramenta tem que trazer benefícios. Hoje as pessoas querem que o supermercado tenha o pagamento via celular para não ter que movimentar cartão ou dinheiro. Só a proximidade com a máquina deve ser suficiente. O pagamento do governo federal é feito todo por aplicativo e o usuário paga contas por aproximação. A higiene do não tocar é algo que terá muito investimento para que haja a redução do cartão físico. Também deve-se levar em conta que o app deve ter um programa de fidelidade e incentivo ao consumidor de usá-lo” avalia.

Marca própria: “A aceitação de marca própria está maior, mas tem a ver com oferta de produto, como alternativa. Não é a primeira marca na mente do cliente, mas passa a considerar. Nesse momento de pandemia, ele leva a opção que tiver com medo da falta, não como valorização da marca própria. É bom para questões de experimentação, porque abre uma nova janela de possibilidade ao cliente”, avalia.

Contratações: “Houve uma contratação maior por causa da pandemia para substituir funcionários do grupo de risco. Na área de delivery também teve muito investimento. Em outro momento, os aplicativos de transporte ganharam destaque. O movimento de Uber e 99Taxi caiu nesse momento e os supermercados fizeram acordos com essas empresas para manter o deslocamento até à loja. As vendas voltaram ao patamar normal, as pessoas tiveram alguns aprendizados e a tendência não é o nosso setor fazer contratações a mais”, afirma.

Tem também a questão de segurança que o comercio fechou mais cedo e o movimento vazio das ruas impactou determinados horários do mercado.

Atacarejo: “Eu vejo que a função do atacarejo seria abastecer o meio manipulador – o empreendedor, o MEI. O que aconteceu é que de maneira distorcida passou-se a vender direto para o consumidor. Esses microempresários foram impactados pela pandemia. O setor segue vendendo porque o consumidor foi a esse serviço para ter uma economia de preços. Mas quem movimenta mais o setor é o MEI, que abastecia o negócio e a casa com esse local. Se não melhorar a economia, o atacarejo sofrerá perdas. A restrição financeira das pessoas continuará. Temos menos consumidor por metro quadrado. Fornecer preço é importante, mas é preciso ter a sensibilidade de que produtos específicos para quem vive a crise são essenciais” afirma o especialista.

FLV: “O FLV viveu um excesso de oferta. Eles vendiam muito para restaurante, merenda escolar e muito oriundo de agricultura familiar. A fábrica de FLV não cessou. A demanda pelo tipo de item que mudou. Um shitake nesse momento não se tornou essencial, inerente a todos. Alface, tomate, cebola são mais comuns. É preciso estar atento a necessidade do consumidor para não ter perdas. Grandes operações que usam ingredientes específicos possuem relação próxima com fornecedor e, este por sua vez, precisará manter a força na produção e vendas também senão impactará outros negócios. Supermercado não tem como bancar tudo isso. O preço tende a cair com o tempo, porque supermercado vende volume, com preço melhor, diferente dos restaurantes”, avalia.

Moda: “É preciso fazer um trabalho muito grande de Marketing como as grandes redes, tipo Riachuelo. Elas criaram uma identidade com o consumidor. É preciso ter uma relação de marca com força, usando influenciadores. A Riachuelo participou de uma live de uma cantora sertaneja e apresentou a marca. A cantora vestiu uma roupa e falou de onde era – o estoque acabou durante a transmissão ao vivo, porque os espectadores compraram tudo pela internet. É isso que o setor precisa fazer. O supermercado vai pelo preço e não pelo branding”, conclui Carlos.

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