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Especial Favelas: mercado local tem que se reinventar após UPP

Presença da polícia em comunidades carentes do Rio de Janeiro aproximou turistas internacionais dessas áreas. Novo contexto favorece surgimento de nichos de mercado

Por | 25/02/2014

luisa@mundodomarketing.com.br

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O Rio de Janeiro vive desde 2011 um processo de pacificação de comunidades carentes, até então, dominadas pelo tráfico de drogas. A instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) é um acontecimento que se reflete em todos os aspectos da vida cotidiana da sociedade e especialmente dos moradores e comerciantes dessas áreas. Se por um lado a presença constante de militares reduz a ostentação de armas e a guerra entre facções, por outro, a população precisa aprender a conviver com uma polícia repressiva. Empreendedores, por sua vez, devem se adequar a um novo perfil de público que passa a frequentar a localidade.

Para quem observa o processo do lado de fora das favelas, o aspecto mais perceptível é o aumento da segurança, representado pela presença permanente da polícia. Como consequência positiva dessa percepção, há a gradativa quebra de barreiras impostas pelo medo da violência, entre os moradores do asfalto, os turistas e a população local. Já para quem mora na comunidade, o sentimento de segurança ainda não é tão sólido quanto aparenta, pois mesmo que sejam com menor frequência, ainda existem confrontos na região.

Em contrapartida, o título de bairro, conquistado após a pacificação, eleva o valor dos imóveis a preços semelhantes aos de fora da comunidade, aumentando o custo de vida dos moradores. As empresas locais também sofrem com a mudança de paradigma social: antes o comércio se aquecia com consumos ostensivos por parte dos integrantes do tráfico e também daqueles que vinham até a comunidade em busca dos bailes funk.

Empresas se reinventam
Hoje a redução desse movimento obriga as empresas a se reinventarem. Algumas apostam na variação do mix, enquanto outras remodelam seus negócios para atenderem demandas de grupos de turismo que visitam a região. "Trago turistas para a Rocinha há três anos. Neste período, vielas que não tinham movimento começaram a ter bares e lojas de artesanato. As mesas tomaram conta das ruas e o movimento cresceu, os moradores abrem as portas e convidam o grupo para ver a paisagem da laje", conta Rodrigo Gordon, Guia de Turismo especializado em Favelas, em entrevista ao Mundo do Marketing.

Antes da pacificação, mesmo à margem da lei, existia uma cultura de assistencialismo por parte do crime. Se alguém precisava de um remédio, por exemplo, e não tinha dinheiro, buscava ajuda na boca e utilizava o dinheiro na farmácia de dentro da comunidade. Com a pacificação, agora o morador busca este medicamento no posto de saúde, reduzindo o movimento na drogaria. "Quando se tira o traficante, a comunidade percebe também uma perda de laços de solidariedade. Isto porque apesar de bandidos, eles também são o filho da dona Joana, o sobrinho da vizinha, nascidos e criados ali", diz Eliana Vicente, Antropóloga da Consumoteca, especialista em consumo das classes populares.

A pacificação levou a uma revisão dos modelos de negócio por determinar um novo contexto. "A dona de uma farmácia foi buscar crédito junto a AgeRio. Ela se queixava de que, com a pacificação, suas vendas caíram. O caminho que ela encontrou foi transformar o estabelecimento em perfumaria e buscou incremento financeiro para isso", aponta Helber Venâncio, chefe do Departamento de Microcrédito da AgeRio, em entrevista ao mundo do Marketing.

Gama de negócios diversificada
Outra possibilidade que se mostra próspera para se reajustar ao cenário é a mudança do foco do negócio em prol do turismo. Estabelecimentos que tinham originalmente o objetivo de atender aos moradores reformulam a sua identidade visual para atrair consumidores internacionais. "Temos visto diversos empreendedores preocupados em dar uma nova roupagem a seus estabelecimentos para se aproximarem também dos visitantes. Após a UPP, a gama de negócios na favela se diversifica com a entrada de novos públicos", comenta Helber Venâncio.

As favelas contam com restaurantes com música ao vivo e, no cardápio, aparecem desde comidas brasileiras, como feijoada, e regionais, como o baião de dois, até culinária oriental, churrascarias e rodízios variados. "Faço questão de que a parada para o almoço do grupo de turismo seja em um restaurante da favela. Além de fortalecer a economia local, ainda serve para mostrar que os serviços da comunidade podem ser tão bons quanto outros encontrados fora dali", diz Rodrigo Gordon.

Com uma imagem mais tranquila, pelo menos nos noticiários internacionais, os turistas se aproximam do roteiro até então pouco explorado pelos pacotes tradicionais, que têm foco na orla da Zona Sul, Pão de Açúcar e Corcovado. "Assim que a pessoa aterrissa no Galeão, ela olha para a direita e para a esquerda e tudo o que vê é um monte de casas empilhadas. Ela pergunta o que é aquilo e vem a resposta: favela. Um cenário diferente do apresentado pelas agências de turismo, mas que desperta curiosidade", diz Rodrigo Gordon.

Busca também por hospedagem
A passagem de turistas pelas regiões de UPP vai além do tour. Essa procura dá origem a um novo nicho: o de serviços de cama e café na favela. Os hostels e albergues se tornam cada vez mais populares pelos seus preços competitivos. Além dos estabelecimentos formalmente dedicados à hotelaria, surge a tendência de hospedagem em casas de família. As vagas são disponibilizadas por meio do site Lugar Para Ficar. A plataforma surgiu a partir da iniciativa de Leonardo Silva, um universitário.
Em 2012, o governo do estado convidou os cariocas a abrirem suas casas para hóspedes durante a Rio+20 e o jovem percebeu uma oportunidade de negócio. "A hospedagem nas comunidades também é um mercado. Em cima da necessidade de hospedagem criei o portal, um espaço publicitário para o morador disponibilizar sua vaga. Assim, quem tem qualquer espaço ocioso em casa pode complementar a sua renda", diz Leonardo Silva, criador do site Lugar Para Ficar, em entrevista ao Mundo do Marketing.

Apesar da imagem de novo polo turístico, a aproximação do morro ainda é mais fácil para quem vem de fora do país do que para turistas nacionais vindos de outros estados e mesmo para os cariocas. "O turista que vai para a favela geralmente é estrangeiro. Os brasileiros preferem os pontos turísticos tradicionais. Mesmo na cidade, ainda existe muito preconceito e associação da imagem do morador da favela ao marginal e da região aos tiroteios e aos riscos de bala perdida", avalia Eliana Vicente.

Infraestrutura continua deficiente
Já para os moradores, apesar do aumento de renda, ainda existem insatisfações com questões cotidianas. Um dos pontos destacados é a supervalorização dos imóveis na região, apesar de não possuírem documentações legais, como RGI ou Habite-se. As casas, em sua maioria construída de maneira irregular, atingem preços de bairros de fora das regiões pacificadas. O aluguel de um quitinete com um pouco mais de 12 metros quadrados na região alta da comunidade da Rocinha, ou do Vidigal, ambas na Zona Sul do Rio de Janeiro, são alugadas por uma média de R$ 700,00. Já para comprar um apartamento de dois dormitórios nas mesmas favelas é necessário fazer um investimento de até R$ 200.000,00.

Além dos preços, outra queixa é a de que os benefícios não acompanham a alta. As localidades continuam sem receber serviços básicos como saneamento, sistema legal de luz e iluminação pública satisfatória. Outro problema comum são pragas como ratos e baratas que surgem atraídos pelo acúmulo de lixo e vazamentos de esgoto. "A valorização do espaço é meramente uma questão de preço. Não significa que, por agora pagarmos mais caro para morar, temos condições melhores.  Deste ponto de vista, o morador já não tem mais condições de comprar uma casa sequer no beco, sem infraestrutura. Para a pacificação ser completa, ela deve trazer também saneamento, cultura e educação. Só assim para ser efetiva", complementa Rodrigo Gordon.

Leia a entrevista completa com a idealizadora do Projeto Ar, Rossana Giesteira, exclusivo para assinantes. Especial Favelas: Pacificação leva consultores para as comunidades

Veja também nas pesquisas do Mundo do Marketing Inteligência: Mapa de consumo dos moradores de favelas no Brasil

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