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Mercado

Free From: uma categoria impulsionada pelas PMEs

Movidos pela falta de maturidade do mercado, consumidores empreendem e criam soluções livres de alergênicos. Para especialista, categoria deveria estar mais unida

Por Priscilla Oliveira - 04/01/2021

A indústria de alimentos passou por grandes transformações na última década – grande parte motivada pela busca por uma alimentação mais saudável. A maior conscientização está relacionada a fatores como bem-estar, meio-ambiente e alergia alimentar. Os itens “free from” livres de substâncias tidas como alérgicas ganha mais espaço nas prateleiras de supermercados a cada ano e os nomes responsáveis por movimentar esse nicho vem principalmente das micro e pequenas empresas. São pessoas que costumam sofrer de alguma alergia e, para preencher essa lacuna no mercado, acabam por empreender.

No Censo 2010, o IBGE destacou que 65,6 milhões de brasileiros possuíam alguma intolerância e que 40% sofrem de algum desconforto gastrointestinal. Mas é o fato apontado de que um quarto da população brasileira teve algum episódio de reação adversa a algum alimento que acende o alerta de como a indústria e o setor de serviços vem olhando para esse público.

As grandes empresas já entenderam a importância de atuar nesse segmento, mas encontram algumas barreiras para serem aceitas e provar que também podem produzir em larga escala produtos livre de leite, ovo, soja ou glúten. Outras companhias, acabam por comprar pequenas empresas que se destacam nesse segmento, como aconteceu com a Unilever ao adquirir a Mãe Terra, de produtos orgânicos.

Apesar de um setor em franca expansão, as PMEs encontram uma certa dificuldade para se consolidarem no mercado. “Há uma forte percepção de que as pessoas e empresas estão trabalhando sozinhas, isoladamente, enquanto poderiam estar mais unidas, trocando experiências e compartilhando conhecimentos, de forma a tornar o segmento muito mais forte e coeso”, apontou Luiz Rebelatto, analista de competitividade do Sebrae, em entrevista ao Mundo do Marketing.

Confira abaixo a entrevista:

Mundo do Marketing - Os empreendedores estão entre os principais nomes que trabalham com alimentos voltados às restrições alimentares. Há algum dado do Sebrae dessa categoria? 

Luiz Rebelatto - Especificamente ainda não temos dados a este respeito, mas o que podemos afirmar, baseado em iniciativas de outras organizações, como o Brasil Food Trends 2020, coordenada pela FIESP, é que há uma lista de características valorizadas pelos novos consumidores, quando o assunto é saúde, dentre elas os alimentos para dietas específicas, restritivas ou para quem possui alergias alimentares. Como uma das principais tendências que irão moldar o segmento de alimentação saudável nos próximos anos aparecem os alimentos "livres de", os quais se consolidam cada vez mais no mercado. 

Ainda neste contexto, alguns segmentos têm se desenvolvido fortemente, como os de alimentos "plant based", ou com matéria-prima de origem vegetal, "clean label", que significa rótulo limpo, e "free from", ou seja, sem a adição de algum ingrediente, como glúten, açúcar, aditivos químicos e leite de vaca. 

Quem está pensando em investir no mercado de alimentação natural deve prestar atenção aos alimentos sem glúten. A demanda de consumo desses alimentos vem aumentando a cada ano e o mercado atende a pelo menos dois tipos de público: pessoas que sofrem da doença celíaca e os que seguem dietas que restringem o consumo da proteína. Segundo o Conselho Nacional de Saúde (CNS), há dois milhões de pessoas no Brasil afetadas pela doença. O Sebrae PR realizou um estudo em 2019 em Curitiba e região sobre a cadeia de alimentos saudáveis. "Em Curitiba, por exemplo, o mercado se apresenta bastante desenvolvido.

Mundo do Marketing - Que oportunidades as PMEs podem ter ao atuar nesse segmento e quais são os maiores desafios? 

Luiz Rebelatto - É unânime a opinião de que o segmento de alimentação saudável está em crescimento, é uma tendência de comportamento e de consumo. Assim, com o aumento da procura por parte dos consumidores, têm-se boas oportunidades se abrindo para os pequenos negócios que atuam ou empreendedores que almejam entrar neste mercado. Curitiba, por exemplo, como cita Suelen Suzuki, consultora do Sebrae, está avançada em comparação a outros grandes centros do país, destacando-se os de produtos orgânicos e sem glúten.  

Apesar da grande quantidade de estabelecimentos comerciais, pequenos varejos e indústrias do segmento, há uma forte percepção de que as pessoas e empresas estão trabalhando sozinhas, isoladamente, enquanto poderiam estar mais unidas, trocando experiências e compartilhando conhecimentos, de forma a tornar o segmento muito mais forte e coeso. Também é de opinião geral que se trata de um nicho com muitas oportunidades de crescimento, pois é ainda é carente de produtos, de estabelecimentos comerciais, de pesquisa e de tecnologia. 

As principais dificuldades apontadas em relação ao desenvolvimento do segmento foram: falta de incentivos fiscais e de investimentos em todo o segmento; altos custos da matéria-prima; desinformação do consumidor em relação à diferenciação dos tipos de alimentos e de onde encontrar os alimentos; falta de profissionalização e de mão-de-obra capacitada para o setor; mitos em relação ao preço, sabor e aparência dos alimentos funcionais, naturais, orgânicos e para fins especiais. 

Mundo do Marketing - Quando alguém procura o Sebrae para atuar com esse nicho, quais são as maiores dúvidas e o que o Sebrae orienta? 

Luiz Rebelatto - Não é porque o segmento está em alta que os cuidados essenciais a todos que querem empreender ou mudar seu modelo de negócios devam ser deixados de lado. Então, o que é mais importante é o empreendedor se capacitar e conhecer as características do negócio e do mercado, a fim de ter as informações e elementos necessários para decidir onde e como irá atuar. 

Por isso, é importante realizar um plano de negócios que o permita conhecer o mercado e seus competidores; decidir como serão seus produtos, os preços praticados, a distribuição e a promoção; construir seu plano estratégico identificando as ameaças e oportunidades, os seus pontos fortes e fracos; estabelecer seus objetivos e metas no curto, médio e longo prazos e construir seu plano financeiro. E para cada um destes pontos e os subitens que os compõem, o Sebrae pode colaborar para que o negócio seja viável e sustentável. 

Mundo do Marketing - Quais as vertentes de negócios para alérgicos e intolerantes são mais procuradas? (snacks, restaurantes, bebidas, cosméticos) 

Luiz Rebelatto - Desta forma, snacks e outros produtos processados, como as bebidas saudáveis, têm ampliado sua presença no varejo, seja ele especializado ou não. Crescem também as opções por restaurantes específicos ou que possuam em seus cardápios opções para alérgicos e intolerantes, sendo também o caso de padarias e confeitarias que têm colocado à disposição dos clientes diversidade crescente de produtos voltados a este público. Um dos cuidados a serem tomados aqui é com a contaminação cruzada a fim de evitar que ingredientes intolerados acabem acidentalmente no produto final.

O setor de cosméticos, apesar da pandemia, tem previsão de crescimento de 6,6% esse ano. Os cosméticos da chamada Beleza Verde têm tido um crescimento acentuado nos últimos anos. É uma tendência já consolidada. Os consumidores que precisam desses produtos, alérgicos principalmente, encontram muito mais opções agora. Esses produtos estão caracterizados em basicamente três categorias: botânicos, orgânicos e veganos.

Mundo do Marketing - Quais as perspectivas para os próximos anos nessa categoria sem glúten, sem leite, sem ovo e sem soja? 

Luiz Rebelatto - A alergia à soja é um problema que atinge muitos brasileiros, apesar de não estar tão evidência como a alergia ao glúten e à lactose. Desta forma, inovar e investir nesse segmento também pode se mostrar interessante. Em geral, a perspectiva é de crescimento, pois as empresas já perceberam o aumento da demanda, quer seja por necessidade ou por escolha, e estão trabalhando para ofertar ao consumidor mais opções de ingredientes e produtos finais, no sentido de contribuir para transformar esta tendência em um mercado em vias de consolidação.  

Leia também o estudo: Alergia e intolerância alimentar: mais que um nicho, uma oportunidade de UX. Conteúdo exclusivo para assinantes.