Mulheres na liderança: diversidade faz bem para os negócios | Mundo do Marketing

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Mulheres na liderança: diversidade faz bem para os negócios

Segredo da inovação está na cultura organizacional: quanto maior a pluralidade no perfil das lideranças, mais ideias de diferentes pontos de vista enriquecem uma estratégia

Por | 24/10/2018

priscilla@mundodomarketing.com.br

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Silvia Fazio, Presidente da ONG Will (Women in Leadership in Latin America)O desafio de inovar para as empresas é muito grande, principalmente no Brasil, onde oito em cada 10 consumidores acreditam que as companhias são as principais encarregadas de encontrar a grande novidade, segundo dados do levantamento The Earned Brand. A solução para fomentar novas ideias, no entanto, pode estar na cultura organizacional. Quanto maior a diversidade no perfil das lideranças, mais ideias de diferentes pontos de vista enriquecem uma estratégia.

Segundo dados da consultoria McKinsey, nas empresas com diversidade de gênero na gestão, o resultado financeiro é 15% superior em relação à média de suas concorrentes diretas. Quando há também a diversidade étnica na liderança, os resultados são 35% maiores. O apelo se estende à economia global. De acordo com o mesmo estudo, num cenário em que todos os países alcançassem a equiparação de gêneros, 28 trilhões de dólares seriam adicionados ao PIB global anual até 2025.

Em 2017, a ONG Women In Leadership In Latin America (Will) fez um levantamento inédito sobre quais são as empresas que mais promovem mulheres a cargos de liderança no Brasil. A pesquisa resultou o Guia Exame de Mulheres na Liderança, que reuniu 2.700 associados em quatro países. O resultado mostrou que, em média, as empresas obtiveram uma pontuação equivalente a 32% da nota máxima. E 20% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres entre as participantes. Entre as 31 destacadas, apenas sete têm uma mulher no cargo de presidente. Dois setores campeões em presença feminina são o de saúde e o farmacêutico, com 46% e 43% de mulheres na liderança, respectivamente. No setor de energia, em contraste, elas são apenas 11%.

O que se vê na maioria das companhias brasileiras é algo ainda mais desigual. As mulheres ocupam apenas 16% do universo total dos cargos de liderança, segundo uma pesquisa recém-concluída com 321 empresas pela consultoria Korn Ferry com diretores, vice-presidente e presidentes. Há uma década, a proporção era de 9%. Hoje só 5% possuem uma mulher na presidência. Quase metade das empresas brasileiras — 45% delas — não tem sequer uma mulher entre seus diretores. Dez anos atrás, 58% estavam nesse grupo.

Se as estatísticas continuam desanimadoras, o assunto nunca ganhou tanta ressonância entre as empresas. Estima-se que 60% das companhias americanas têm um executivo apenas para cuidar da diversidade na força de trabalho. "Um fator que ajudou o tema a ganhar relevância foi a percepção de que a diversidade faz bem para os negócios. Existir pessoas de um só gênero tomando decisões, em uma empresa ou país, empobrece a decisão", conta Silvia Fazio, Presidente da ONG Will (Women in Leadership in Latin America), em entrevista ao Mundo do Marketing.

Veja abaixo a entrevista completa com a executiva.

Mundo do Marketing - As mulheres ocupam uma porcentagem muito pequena em cargos de liderança. Essa realidade é global ou apenas no Brasil?

Silvia Fazio - Em conselhos temos menos de 8% - fica mais fácil medir conselho porque é um cargo que tende a durar mais em tempo. O cargo de CEO por si só tende a ser mais limitado. Muitas multinacionais preveem um termo de duração para o CEO, é quase como um diplomata, fica em torno de três anos - até para alterar a estratégia da empresa. Fizemos essa pesquisa em 2017, voltada tanto para medir os programas que estimulam a ascensão feminina - porque o problema vem não só de medir o topo, mas como promover mais mulheres. As empresas têm estimulado em programas essa valorização. Setorizamos porque existem categorias que são mais fechadas para mulheres - automotivo, óleo e gás são alguns difíceis de ter entrada do sexo feminino. Outro fator é a questão salarial, porque as mulheres, muitas vezes, ganham menos mesmo ocupando cargos iguais. Quanto mais sobe o cargo, maior a diferença salarial, principalmente por existir uma parte da remuneração que não é fixa, como os bônus. O pacote de compensação é menos transparente e acaba ficando ainda mais fácil para que se pratiquem injustiças, porque o critério é subjetivo. Queremos combater as desigualdades e estimular a ascensão.

Mundo do Marketing - As empresas demonstram interesse em resolver essa questão?

Silvia Fazio - Sim, principalmente as grandes. As multinacionais já possuem programas globais. As empresas têm reconhecido que existe uma cadeia de valor e nós temos clientes que pedem detalhes de nossos programas de diversidade - tanto para gêneros, étnicas e raciais - todos esses pontos são requisitos para conseguir colocar uma proposta para um cliente. A diversidade gera lucro, as pesquisas provam isso. Ao representar a sociedade, a empresa inova e atende as mudanças dos tempos. A diversidade está ligada à inovação e, dessa forma, ligada a estratégia da empresa como um todo e a promoção da lucratividade.

Mundo do Marketing - Essa questão do lucro foi outro ponto apresentado na pesquisa, de como essa política de promoção traz bons resultados às empresas. Como que isso pode ocorrer? Uma visão diferente das mulheres de aplicação aos negócios?

Silvia Fazio - Existir pessoas de um só gênero tomando decisões, em uma empresa ou país, empobrece a decisão. A mulher tem tendência a ser conservadora na carreira, no sentido de arriscar menos. No setor financeiro temos dados que provam que bancos que tiveram mulheres em tomada de decisão ficaram menos expostos à crises. Pessoas de diferentes culturas, gêneros, etnias em uma equipe de decisões enriquecem mais a decisão. Fora o quesito de representação da sociedade: um consumidor se sente valorizado quando vê uma empresa inserindo um semelhante dele.

Mundo do Marketing - Em que país essa diversidade nos cargos é mais aplicada?

Silvia Fazio - É um problema global, em alguns países há escolhas por cotas - como França e Itália - nós pessoalmente não acreditamos que seja assim, principalmente em presenças nos conselhos. Cota pra conselho não traz a essência. No Brasil, eu vejo uma grande dificuldade de que isso seja implementado, há uma resistência enorme do empresariado brasileiro. Eu acredito que tenhamos mais resultado com sistemas de "discloser" ou, em português, revelador. As empresas tem que revelar quais são seus números de contratados e cargos que ocupam. Ao revelar, ela se expõe e se autoanalisa. Na Inglaterra, esse ano entrou em vigor uma legislação que combate a diferença salarial. Empresas com mais de 500 funcionários tiveram que divulgar a diferença salarial. Ao fazer isso, elas resolveram acabar com os números ruins e apresentaram projetos para reverter esse quadro. Essa questão de exposição estimula essa auto regulamentação. Ela não tem que ter cota, mas mostrar esses números justificando suas escolhas. Algumas bolsas de valores tem solicitado isso às empresas.

Mundo do Marketing - Muitas profissionais percebem que a maternidade influencia em uma promoção, principalmente quando os filhos são pequenos, mas quando são maiores, as ofertas acabam surgindo. Outras acabam adiando a maternidade para não afetar uma possível promoção. Seria uma questão de mentalidade do passado ou ainda acontece?

Silvia Fazio - Acontece muito ainda. Esse é um dos grandes temas em desafio para empresas. Temos debatidos programas eficazes para melhorar isso. Tem o retorno da licença maternidade, que a mulher acaba se isolando. Para isso, existem alguns programas que estimulam networking interno e externo. A mulher acaba perdendo um espaço corporativo, pelo espaço corporativo não ter se adaptado à realidade da mulher. Ela sempre fica tentando ser um homem. As empresas tem estimulado isso e criado programas. A questão legislativa também busca estimular uma licença paternidade maior ou a licença parental compartilhada, algo polêmico principalmente em países latinos, porque os homens ainda não tomam para si esse papel. Mesmo aumentando a licença os homens não usam esse direito. É uma questão cultural maior. As próximas gerações podem melhorar nisso.

Mundo do Marketing - Em companhias as mulheres são minorias em lideranças, mas na área de empreendedorismo as mulheres são as que mais abrem seus próprios negócios. Vontade e perfil de liderança existe então!?

Silvia Fazio - Isso é interessante, é um dado que uma pesquisa recente trabalhou. Existem pequenas empresas lideradas por mulheres em sua maioria. A mulher qualificada ela não se enquadra no mundo corporativo e acaba empreendendo. Isso é mais forte entre mulheres negras. Conversando com movimentos raciais analisamos esses dados. Quando uma profissional não evolui no mundo corporativo ela sai e empreende. E pode vir a concorrer com seu antigo patrão.

Mundo do Marketing - Algum ponto da pesquisa te chamou mais atenção?

Silvia Fazio - Um, de maneira positiva, foi a resposta sobre envolvimento da liderança em resposta de diversidade de gênero. Nos consideramos isso fundamental, e quase 63% a liderança está envolvida, não é apenas uma questão de RH, um discurso. No lado negativo são as políticas de promoções para mulheres. Hoje em dia na Europa e Estados Unidos, pelo menos, mais de 53% das empresa consideram alguma política. No Brasil 69% das empresas dizem que não possuem nenhum tipo de política de promoção. Na hora que ela entra na empresa há um discurso, mas na hora de promover não valorizam essa profissional. A entrada não é ruim, as universidades estão com mais mulheres se formando e entrando no mercado de trabalho, mas na hora de promover em um cargo os homens ainda passam à frente.

Leia também: Os traços da geração millennial no mercado de trabalho - conteúdo exclusivo para assinantes do Mundo do Marketing Inteligência.

(Crédito imagens: Depositphotos)

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