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Como a vacina para COVID-19 nos ensina sobre o método Agile

Imunizantes normalmente levam 15 anos para serem desenvolvidos, mas laboratórios criaram vacina nessa pandemia em 10 meses. Estrutura de trabalho é semelhante a praticada no Marketing

Por Priscilla Oliveira - 12/01/2021

Image by John cairns university of oxfordO mundo não fala de outra coisa a não ser a chegada das vacinas para COVID-19. A ansiedade tem explicação: além das milhares de mortes, a pandemia mudou drasticamente a economia e fez com que as formas de relacionamento e consumo mudassem. A novidade de um imunizante em curto espaço de tempo acendeu um alerta em muitas pessoas que desconfiaram da eficácia de algo feito tão rápido. Afinal, vacinas normalmente demoram uns 15 anos para serem desenvolvidas. Como que laboratórios, como a Oxford, conseguiram criar algo em 10 meses?

Uma breve explicação de Ricardo Parolin Schnekenberg, médico e doutorando na Universidade de Oxford, no Reino Unido, mostrou como o processo de elaboração da vacina funcionou de maneira semelhante ao método Agile. Veja abaixo em três etapas como os negócios e a elaboração da vacina funcionam de maneira semelhante:

A dor

De acordo com o especialista em seu blog, o trabalho começou 10 anos atrás, muito antes da COVID-19 surgir. O grupo de Oxford pesquisava vírus de chimpanzés que poderiam ser “hackeados” para expressarem uma proteína de outro agente infeccioso e assim induzirem imunidade em humanos. No Twitter ele também explica que esse sistema (chamado ChAdOx1) é que permitiria o desenvolvimento rápido de vacinas para diferentes doenças, apenas trocando-se a proteína do agente infeccioso. Estudos prévios já haviam mostrado tolerabilidade e segurança no uso desse vetor.

Ao longo dos anos, essa plataforma ChAdOx1 (Chimpanzee Adenoviral Oxford 1) foi utilizada no desenvolvimento de diversas vacinas (Ebola, Zika, Chickungunya, HPV, Hepatite B, Tuberculose, HIV) – por essa razão, ele afirma que há grande experiência e confiança em sua segurança. O surgimento em 2012 da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), a segunda doença grave em humanos causada por coronavírus, assustou o mundo assim como o COVID-19. Antes que ela se tornasse uma pandemia, o mundo conseguiu controlar a MERS, mas mesmo assim cerca de 800 pessoas morreram e casos foram identificados em 27 países diferentes.

O médico ainda lembra que pouco tempo depois, em 2014, a África teve o pior surto de Ebola da história, com mais de 11 mil mortos. Um vírus conhecido e negligenciado por muitas décadas voltou a assustar o mundo. E, um ano depois, veio a Zika. Para Ricardo, ficou claro que a humanidade escapou raspando de várias epidemias que poderiam ter sido muito mais graves e disseminadas. Além disso, no texto do médico ele afirma que a capacidade de resposta era lenta, fragmentada e ineficiente. Por isso eram necessários novos métodos e preparação prévia para a próxima pandemia.

Neste ponto podemos ver como uma série de desafios foram impostos e diversos problemas foram surgindo, pedindo uma reação rápida. Assim como nos laboratórios, diversas empresas passam por momentos difíceis e tomam decisões apenas quando algum dano aparece. A solução encontrada pode resolver algo pontual, mas deixar sequelas (reputação arranhada, ou déficit de orçamento, por exemplo). Ou seja, a falta de antecipação e resposta rápida a um problema traz custos e perdas.

Leia também: Como o método Agile pode diminuir a pressão sobre os profissionais de Marketing

Como o Marketing Ágil mudará a forma de trabalhar a partir de agora

Ação

Foi então que a OMS começou a se preparar antecipadamente para o que poderia ser a próxima pandemia. O médico e doutorando lembra que em 2018, além de focar nos “usual suspects”, elencaram a “Doença X”-  causada por um agente infeccioso novo ou imprevisto, algo sem preparo ou conhecimento prévio. Dessa forma a OMS colocava em curso mecanismos de resposta acelerada à próxima pandemia, independente do que a causasse.

“Na época, um representante da OMS disse que o objetivo era acelerar a pesquisa e desenvolvimento de plataformas “plug and play”, que permitiram rápida produção de vacinas contra um patógeno previamente desconhecido: exatamente o que Oxford estava fazendo. Mas o trabalho laboratorial realizado por cientistas é apenas uma parte de todo o processo de desenvolvimento de uma vacina. Grande parte do tempo é gasta com burocracias intermináveis: escrever projetos de pesquisa, conseguir financiamento, passar por agências regulatórias...”, escreveu Ricardo Parolim.

É essa mesma burocracia e lentidão organizacional que prejudica a tomada de decisões ágeis. Nos negócios, as planilhas possuem um peso maior de decisão e cabe ao gestor entender onde flexibilizar a fim de atender tanto o que um CEO quer, quanto a prática mais eficiente para atender a demanda. No caso, a preparação da OMS e do grupo de Oxford para a “Doença X” incluía antecipar quais seriam esses passos burocráticos lentos e de certa forma deixar tudo engatilhado. O mais importante entre eles era: como conseguir muito dinheiro rapidamente?  Analisando sob a ótica empresarial, é aí que entra a importância de equipes híbridas, que envolvam até mesmo quem cuida da parte contábil na execução das ações.

Voltando à elaboração da vacina, enquanto o grupo de Oxford estava trabalhando no desenvolvimento de uma vacina para MERS, usando a plataforma “plug and play” ChAdOx1 (sem uma emergência mundial, as pesquisas caminhavam no ritmo habitual), eis que na virada de 2019 para 2020 o mundo acordou com a notícia de uma nova síndrome respiratória viral na China. “Assim que um coronavírus foi anunciado como causa, entendeu-se que a “Doença X” havia chegado”, pontuou Ricardo Parolim. O grupo de Oxford ativou os planos previamente traçados para a “Doença X” e combinou a expertise em MERS com a plataforma ChAdOx1. Dessa forma conseguiram “pular” vários anos de pesquisa básica e tinham confiança na segurança da vacina para MERS em humanos.

“Com dinheiro praticamente infinito, puderam também correr riscos financeiros previamente considerados inviáveis. Enquanto em outras épocas as fases de pesquisa clínica seriam feitas sequencialmente (e separadas por meses ou anos entre elas), dessa vez as fases foram combinadas ou realizadas em rápida sucessão. As agências regulatórias já acompanhavam o processo no decorrer do estudo e estavam prontas para permitir o início da próxima fase ao momento que a anterior terminasse. Dessa forma o grande desperdício de tempo entre as fases foi eliminado, sem prejuízo algum aos participantes do estudo ou aos resultados. Os exatos mesmos critérios de qualidade e segurança de outras vacinas foram implementados no processo de desenvolvimento da vacina COVID19”, afirmou o médico e doutorando de Oxford.

Esse é um claro exemplo de quando a empresa considera riscos e abre a possibilidade de falha, permitindo que alguma perda financeira aconteça em prol de algo maior que vá dá certo, a equipe pode tentar inovações que antes não seriam consideradas. E dentro delas é que pode estar algo totalmente único ao negócio. A experiência nas falhas também traz um poder maior de decisão rápida quando preciso. Além disso, as equipes integradas em um propósito fazem com que o resultado saia rapidamente.

O depois

Na questão da vacina, ainda era preciso considerar o tempo de produção caso os estudos funcionassem. “Aí que entram contratos de governos, investimento de grandes agências financiadoras e investimento de companhias farmacêuticas. Foram centenas de milhões de libras investidos na produção de dezenas de milhões de doses da vacina, mesmo antes dos estudos mostrarem quaisquer resultados. Lembrando que vacinas promissoras frequentemente falham em testes clínicos. Era grande o risco de que milhares de doses seriam produzidas a enorme custo, apenas para serem descartadas caso os testes clínicos falhassem. Seria uma catástrofe imensa. Felizmente isso não aconteceu. O mundo criou vacinas efetivas e seguras em tempo recorde graças ao trabalho de cientistas, agências financiadoras, governos e da Organização Mundial da Saúde”, concluiu Ricardo na explicação.

Ele ainda salientou algo que é o que move as ações nas empresas: o desenvolvimento extremamente rápido só foi possível com muito dinheiro, um enorme esforço coordenado e um pouco de sorte.

Em um mundo em constante transformação, tomar uma decisão rapidamente é imprescindível para manter os negócios sempre relevantes aos clientes. No mundo moderno do Marketing, especificamente, ser capaz de se adaptar rapidamente é crucial para não ficar atrasado diante de uma novidade ou imprevisto. Com a pandemia, o Marketing Ágil entrou de vez nas salas de reuniões, mostrando que a tecnologia veio para ficar e que arriscar pode trazer inúmeros benefícios.

Se o método Agile funciona e vem sendo adotado por diversas empresas em franco crescimento e não é contestado, porque traz resultados positivos, não deveria ser diferente quando a ciência testa e atesta que em curto prazo é possível sim combater um vírus. O planejamento antecipado, conhecimento e trabalho em equipe seguem funcionando.

Saiba mais no estudo: Agile Marketing: a importância dele para o sucesso dos negócio

Image by John cairns university of oxford

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