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Consumer Insights: A lógica do consumo pelo olhar da antropóloga Hilaine Yaccoub

Ser ou não ser elite

Quando se pensa em elite, logo se imagina aquele magnata cheio de poder, prestígio e muito dinheiro. Na verdade essa representação de riqueza e de poder é relativa...

Por: | 02/05/2012

hilaine@gmail.com

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Quando se pensa em elite, logo se imagina aquele magnata cheio de poder, prestígio e muito dinheiro. Na verdade essa representação de riqueza e de poder é relativa. O que é elite para determinados grupos que moram em grandes capitais como São Paulo ou Rio de Janeiro é completamente diferente do que é ter prestigio em Belém do Pará ou Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Assim também ocorre em outras localidades, espaços, bairros ou favelas.

Quando realizei uma pesquisa em um bairro popular da região metropolitana do Rio de Janeiro, considerado uma localidade cheia de carências e problemas socioeconômicos, ao iniciar o trabalho de campo, ocorreu um episódio que me abriu os olhos para a relativização que devemos fazer a todo tempo: a hierarquização social é relativa, independente do lugar, da origem do dinheiro, ou da forma de prestígio.

"Entrei em um salão de beleza, vestida de forma simples, sem maquiagem, sandálias havaianas, para cuidar das unhas. No meio do processo, uma imponente pick-up prateada de cabine dupla estacionou bruscamente na porta do salão, chamando a atenção de todos. Desceram do carro duas mulheres, vestidas de blusas e vestidos de renda transparente preta, calça jeans coladas ao corpo com muitos detalhes brilhantes, botas de salto alto, usando muitos adornos de baixa qualidade (pulseiras e colares) e bolsas de grifes visivelmente falsificadas.

As duas adentraram o recinto, chamando a atenção de todos. Foram reconhecidas pelos funcionários do lugar, que pararam o que estavam fazendo para recebê-las e paparicá-las, elas não poderiam esperar e furaram a vez de quem estava aguardando. A manicure que me atendia chamava as duas com epítetos carinhosos, diminutivos, "amorzinhos", "minhas queridas" e se desculpava, dizendo que já iria atendê-las. Eu, ali com os braços esticados, tornei-me praticamente invisível.

Quando saí do salão vi as duas sentadas em suas cadeiras em frente ao espelho, com dois funcionários atendendo cada uma, coisa rara em salões de bairros populares - tipo de serviço em que dois ou três funcionários atendem um mesmo cliente é muito comum em salões de prestígio de grandes capitais (mas não era o caso ali)."

Essa foi a primeira experiência, logo no primeiro mês de trabalho de campo, a me propiciar a visão de que, em bairros populares, existem os invisíveis e os importantes. Eu, definitivamente, não tinha qualquer prestígio ali, e estava claro que algo lhes conferia esta forma diferenciada de tratamento. Foi meu primeiro insight para perceber que essas eram tratadas como uma espécie de "elite local". Eu, reconhecidamente, não tinha qualquer atributo que me conferisse esse status, tanto pela aparência simples como pela ausência de bens que me conferissem "superioridade".

Apesar da minha aparência europeia (pele clara, cabelo cacheado, traços  finos) , boa formação educacional, origem "burguesa", eu não tinha carro chamativo, não andava de salto alto, não usava roupa brilhante, e absolutamente não era esposa de nenhum homem rico ou reconhecido do bairro. Eu, filha da classe média tradicional, era mais uma invisível naquele lugar.

diário,elite,classe c

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Biografia

PHD em Antropologia(UFF), há mais de 15 anos atua em pesquisas customizadas, consultorias, cursos in company e palestras

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