Licença para pensar | Mundo do Marketing

Publicidade

Patrocínio

Publicidade
Publicidade Publicidade
Mundo do Marketing Inteligência

Blogs

Consumer Insights: A lógica do consumo pelo olhar da antropóloga Hilaine Yaccoub

Licença para pensar

O modo de ver a favela e seus moradores

Por: | 12/09/2012

hilaine@gmail.com

Compartilhe

Muitas vezes, quando conto para as pessoas que meu trabalho de campo para tese de doutorado estava sendo realizado em uma favela até então não pacificada, percebo certa surpresa revelada em olhares, interjeições que deflagram sustos, estranhamentos e medos. Logo depois exaltam minha "coragem" (e um possível amor à profissão e à pesquisa) e também se indignam com minha escolha. "Como você foi para lá? Não tinha outro lugar pra pesquisar? O que seus pais acham disso?"

Esse questionamento e esses sentimentos oriundos dos outros me fazem lembrar meu papel de antropóloga e, por sua vez, tradutora de costumes e formas de expressões socioculturais. Devo lembrar a todo instante que tamanho estranhamento vai além de preconceitos.  Na verdade, o que se tem é um olhar exotizado que foi construído e reproduzido ao longo de décadas, e que tem sido reafirmado por diferentes setores da nossa sociedade, desde a mídia até a política. Tais setores assumem planos e projetos que não condizem com o viver e pertencer a uma favela de fato.

Desse modo, cria-se uma identidade de favelado ligada à precariedade, malandragem, falta de escolhas, marginalidade, carência, ausência de normas, de cultura e de regras sociais. Esse imaginário acabou sedimentando-se em uma forma única de ver e julgar todo um grupo de pessoas que, na realidade, são plurais, diferentes e heterogêneas. São muitas favelas dentro da mesma favela e, dentro dessa lógica, são muitos tipos de pessoas dentro de um mesmo grupo.

Falando assim parece óbvio, mas não é o que percebemos na prática quando lemos jornais que nos dizem que os moradores de favela compram todos os eletrodomésticos que podem nas Casas Bahia (e se endividam) porque não pagam energia elétrica.

Ao alugar uma casa na favela, percebi que não é bem assim. Eu tenho "gato" de energia elétrica, de água e de internet porque tentei contratar o serviço regular e me foi negado. Eu, morando em uma favela, não tenho o direito de exercer minha cidadania de consumidora, de pagar por um serviço. E aí pergunta-se: como viver sem energia, água e comunicação nos dias de hoje? Como fazer?
Para além dos "gatos" e das gambiarras, eu acesso os arranjos técnicos, dou um jeito para fazer valer minha necessidade, meu interesse, minha vontade.

Muitos podem discordar e dizer que, mesmo se o serviço fosse regularizado, muitos moradores fariam as ligações clandestinas da mesma forma porque "está no sangue", porque querem vantagem, porque são assim, está na "cultura deles".

Essas justificativas são as que mais ouço quando trato desse assunto. Aí caímos novamente em dois pontos cruciais: as pré-noções baseadas em histórias únicas (sedimentadas e reproduzidas sem questionamentos) e a ideia de que a cultura não muda. Isso é uma inverdade. Costumo dizer em minhas aulas que, até um tempo atrás, quem usava minissaia eram as putas. Hoje, as filhas das classes médias fazem uso dessa peça de vestuário de forma deliberada. Se a cultura não muda... então, o que é?

A visão que se tem das favelas e de seus moradores é um tanto simplista, única, partidária e tendenciosa. Quando vivi de perto e dividi espaço com os moradores da favela tenho percebido outras nuances que estão guardados no campo do privado e que, de fato, não fazem parte do conhecimento público.

O conceito homogeneizador da favela acaba sendo, de fato, uma armadilha para o entendimento do espaço, suas regras, seu lugar social e mais - seus moradores-consumidores e suas formas de uso de coisas, serviços e produtos.

O consumidor moderno tem cada vez mais ciência de seu poder de compra e de seu direito de escolha. As empresas devem tratá-lo com dignidade, respeito e, sobretudo, atenção. Se não há essa relação estabelecida, ele simplesmente customiza, interfere, adapta para que sua necessidade ou seu desejo sejam atendidos da forma como entendem ser a ideal.
 

Comentários

Biografia

PHD em Antropologia(UFF), há mais de 15 anos atua em pesquisas customizadas, consultorias, cursos in company e palestras

Arquivos


Este blog reflete única e exclusivamente a opinião do seu autor e não necessariamente o posicionamento jornalístico que norteia o Mundo do Marketing.

Acervo

Voltar ao Topo

Copyright © 2006-2018.

Todos os direitos reservados.

Assine o Mundo do Marketing Inteligência

Copyright © 2006-2018. Todos os direitos reservados. Todo o conteúdo veiculado é de propriedade do portal www.mundodomarketing.com.br. É vetada a sua reprodução, total ou parcial sem a expressa autorização da administradora do portal.

Auditado por: Metricas Boss