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Consumer Insights: A lógica do consumo pelo olhar da antropóloga Hilaine Yaccoub

O olhar para os ?os outros? ? os favelados

Muita gente toma minha empreitada como algo super exótico, inusitado ou insano. Ou desconhecem os muitos antropólogos que, para elaborarem seus estudos e traduzirem as mais variadas etnias, fizeram como eu

Por: | 13/06/2012

hilaine@gmail.com

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Muita gente toma minha empreitada como algo super exótico, inusitado ou insano. Ou desconhecem os muitos antropólogos indigenistas que, para elaborarem seus estudos e traduzirem as mais variadas etnias, fizeram como eu, foram morar lá. Como assim fazer trabalho de campo em uma favela? Sim, a questão é que, se eu quero contar como é viver e morar em uma comunidade (ou favela, como prefiro), preciso vivenciar tudo que envolve esse "estar lá".

Obviamente que a favela tem lá as suas deficiências e isso não é novidade para ninguém. Está o tempo todo estampado nos jornais, nas revistas, nos programas de TV. Há violência, há falta de água, de luz, de limpeza; os serviços não chegam a todos os pontos da localidade e percebem-se ilhas onde os moradores simplesmente se viram para dar conta das necessidades básicas. Há locais miseráveis, outros nem tanto. Ratos e baratas convivem com muitos desses moradores.

Mas e a outra parte? Será que todas essas pessoas moradoras de favelas moram lá por pura falta de condições de escolher um lugar melhor? Será que é sempre ruim? Será que morar na favela tem um lado bom? Essas são as perguntas que me faço e começo a investigar. O    que pude perceber é que há também locais com bastante conforto e facilidades como qualquer outro bairro regular. Existem ruas onde se encontra a elite local, com casas de vários andares, churrasqueiras, terraços para lazer. Carros são uma realidade local, muitos moradores os possuem e pagam estacionamentos rotativos locais para guardá-los.

No entanto, prefiro focar em outras questões quanto ao prazer de estar/morar em uma comunidade.

Estando lá percebo uma felicidade de muitos que estabeleceram raízes naquele espaço, nasceram e foram criados naquela favela, temem ser retirados do seu habitat quando falam de programas de urbanização do governo. Sentem-se bem, existe um meio próprio de sobrevivência, de diversão, de consumo.

Não, nem tudo é mazela quando se trata de favela. (rimou!)

Estar lá me diverte, assim como encontro muitas gargalhadas na praça que se transforma em um pólo gastronômico às sextas, e mais ainda por me relacionar com o diferente, quebrar paradigmas e estereótipos. Aprender a viver e a morar numa favela é, sem dúvida, uma lição que possivelmente carregarei para o resto da vida.

Sexta-feira totalmente desprovida de recursos, ou, como dizem, sem estar com um "puto" no bolso, porque o caixa 24h local estava sem dinheiro, fui até a praça falar com o pessoal da associação de moradores. Tinha bastante movimento e eu queria registrar o entretenimento local. Passando por uma barraca de batata frita, a vontade apertou, estava com uma cara ótima. Aquele cheiro inebriante me seduziu na hora. Mas como comprar? Desisti. Cumprimentei o proprietário, um rapaz de 30 anos que eu conhecera naquela tarde. Ele é vigilante, casado, com dois filhos e nos finais de semana coloca a barraca para fazer uma grana extra. Passando por ele, ganhei um alô ligeiro e um sorrisão, apesar de estar ocupado fritando suas batatas dava pra perceber que estava feliz, contente com seu negócio. Depois de algum tempo ele chegou com uma quentinha enorme de batata frita e linguiça calabresa e me entregou! Fiquei surpresa. "Isso aqui é pra você experimentar o meu produto". Sim, ele soube cativar uma cliente.

A favela é assim, as pessoas te surpreendem com gentilezas, com valores de sociabilidade, que as grandes cidades esqueceram. Morar numa favela tem um "quê" de cidade pequena, onde todos se conhecem, todos se falam e todos sabem da vida um do outro. Privacidade e invisibilidade são palavras que não pertencem aquele espaço.

Um "gringa" na favela: como sou percebida
É de conhecimento geral a minha pesquisa de doutoramento, a associação de moradores já se encarregou de falar sobre isso, assim como também muitos interlocutores que venho formando e "arrebanhando" para meu trabalho.

Quando me veem tirando fotos perguntam se é para reportagem, explico o que é com toda paciência e ainda me convidam para ir a suas casas. Pego o nome, telefone e vou fazendo meus contatos todos.

Eles se interessam por me ajudar a "mostrar a realidade" (como me disse uma senhora dona de casa moradora antiga), não aguentam mais as caricaturas e estereótipos existentes do morador de favela (muitas vezes paradoxais): miserável, vítima, aproveitador, malandro, marginal, trabalhador. Eles são e não são tudo isso.

Assim como todos os outros, nós, moradores da Zona Sul, Zona Leste, Zona Oeste, que podemos ter todas essas características (miserável, vitima, aproveitador etc.), dependendo do contexto em que estivermos; tudo é relacional. Um dia somos o mocinho, no outro dia somos o bandido.

Segue a foto do meu novo amigo, fritando suas batatas.

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Biografia

PHD em Antropologia(UFF), há mais de 15 anos atua em pesquisas customizadas, consultorias, cursos in company e palestras

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