A arte de fazer chapéus | Mundo do Marketing

Publicidade

Patrocínio

Publicidade
Publicidade
Mundo do Marketing Inteligência

Blogs

Conexão Paris

A arte de fazer chapéus

Por: | 29/09/2010

stella@slegnani.com.br

Compartilhe

Um dia cinzento e ventoso, mas que se transformou em cor instantaneamente. Assim foi meu encontro com o renomado Jean Pierre Tritz, o mais antigo chapelier de Paris, mestre e modista, que assinou chapéus de grandes maisons como Hermès, Balenciaga, Jean Paul Gaultier, Leonard Paris e Carven, entre tantos outros. Rodeada de fitas, feltros, botões e voiletes, fui surpreendida com a visita da amiga Christelle Posada, chapeleira de Yves Saint Laurent que acabou fazendo uma participação na nossa entrevista.

Stella Pelissari - Como você define a arte de um modista chapelier?
Jean Pierre - Existe diferença entre modista e chapeleiro, sou os dois. O modista cria chapéus únicos, o chapeleiro prepara para que sejam produzidos em série. De toda a maneira, a arte de fazer um chapéu é como a de um escultor. A matéria é extremamente trabalhada, deformada. O calor cede espaço para dar forma à ideia e ela sofre enormemente até chegar à obra final. É um trabalho físico, de força nas mãos, de precisão, de técnica, meticuloso e sensual. Para produzir um chapéu é preciso respeitar o limite de cada matéria-prima, dar-lhe a mesma espessura, mesmo formato, equilíbrio, algo quase sensorial. Quando vemos a matéria, enxergamos o chapéu. Como um grande estilista que, ao olhar o tecido, normalmente já vê o vestido. Claro, existem surpresas... Algumas matérias são rudes e têm vontade própria, sabem o tipo de chapéu que desejam ser... E não podemos lutar contra isso. Ao procurar algo encontramos outro caminho, totalmente novo e irretocável.

Stella - Como inicia o processo da criação de um chapéu?
Pierre - A primeira parte é a mais importante, é no sisal ou na palha que fazemos o debut da criação, chamamos este processo de "moulagem". Este molde passa a ser esculpido em madeira, dando origem à fôrma do chapéu, onde vamos trabalhar posteriormente a matéria.

A arte de fazer chapéusStella - Quais são as tendências de moda no segmento?
Pierre - O chapéu sempre foi uma imagem de pódio, luxo, glamour, sofisticação e aristocracia. Mas ele tem seus ciclos, momentos de alta e de quase desaparecimento. Na atual sociedade do luxo tem seu espaço um pouco restrito. Na década de 1980, o governo francês junto com o Chambre de Comércio da Alta Costura Parisiense se uniram para a criação de uma escola, a CAP, com o objetivo de relançar o metiér de modista que estava quase extinto. Mas logo veio a guerra do Golfo e fez uma alteração incrível na economia da moda, principalmente da alta costura francesa. Com os atentados que passaram a acontecer depois de 1991, os clientes americanos e dos Emiratos Árabes deixaram de vir para Paris. Muitas maisons de alta costura fecharam. O chapéu ficou praticamente restrito ao Hipódromo, as festas e os bailes foram ficando cada vez mais raros. Foi nesse momento que o prêt à porter ganhou força, se desenvolveu e tomou o lugar da alta costura. Por isso, um chapéu sob medida é cada vez mais raro, mas existe o mercado. Assim como existem chapéus vindos do mercado chinês por preços incontornáveis. Mas não podemos falar mal da China. A melhor palha do mundo era vinda da China. Eles sempre tiveram um savoir faire impressionante. É uma questão de direcionamento de mercado. Mas o canal mudou... O que é lastimável.

Stella - Como é trabalhar para as grandes maisons de moda?
Pierre - Os estilistas das grandes maisons vêm com croquis e discutimos até chegar ao ponto ideal do que esperamos da coleção. É um trabalho conjunto, de troca, mas eles sempre sabem o que querem. Já numa encomenda para um cliente particular a intervenção é bem maior. Criamos um chapéu que se adapta à forma do rosto, cor de cabelo, tonalidade de pele. É a "alta moda" no acessório. Como um vestido de alta costura. A partir daí, criamos o protótipo em palha/sisal adaptado até a aprovação total, antes de esculpi-lo na madeira.

A arte de fazer chapéusStella - Christelle, como foi trabalhar 20 anos com Monsieur Yves Saint Laurent?
Christelle Posada -
Assim que terminei meus estudos como modista fui trabalhar com Yves Saint Laurent, onde permaneci 20 anos. É uma história de vida. Trabalhar tanto tempo com a mesma pessoa sai da relação profissional e passa a ser uma relação familiar. Cresci muito na Maison YSL, fazíamos sete coleções por ano de até 60, 70 chapéus. Duas de alta costura (a mais importante), duas para o prèt a porter de luxo, uma de pré-inverno, uma de pré-verão e uma de peles e plumas. Uma verdadeira loucura! Quando Monsieur YSL decidiu se aposentar, vendeu a marca de prét à porter, fechou a maison de alta costura junto ao ateliê de chapéus e de sapatos sob medida. Hoje não existe mais alta costura YSL, somente prét à porter. Assim, decidi viver na Provence para criar meus filhos. Mas não posso viver sem produzir. Tenho meu ateliê, onde faço peças sob medida para clientes ou grifes. No último inverno, fiz uma coleção para a Maison Baleciaga e gostei muito do resultado.

Stella - Qual chapéu marcou sua vida?
Pierre - Uma das criações mais loucas que fiz, foi para um artista brasileiro, o Tunga, para a Bienal de Veneza e de Munique. Posteriormente, ele utilizou numa exposição no Louvre. Foram dois chapéus gigantes, que mediam três metros de diâmetro. Um de palha, outro em feltro. Foram três meses trabalhando duro em cada um deles. Uma obra prima posso dizer, com a técnica completa, sisal, fôrma em madeira etc. O resultado foi impressionante. Este foi um trabalho bem particular, mas cada chapéu que produzi tem seu encanto, sua singularidade.

Stella - Qual seu projeto para o futuro?
Pierre - Sou mestre, gosto de ensinar. O jovem de hoje não sabe diferenciar a qualidade, porque na verdade ele não teve oportunidade de conhecer a qualidade, ele conhece o efêmero. Assim, sou o único que ensina a arte de costurar em palha o chapéu. Aprendi com os antigos mestres métodos de chapelaria que não existem mais, desapareceram com o tempo. Quero tentar perpetuar a técnica, sou um persistente do passado.

Comentários

Biografia

Stella Pelissari é formada em Moda e Jornalismo, tem pós-graduação em Moda e Comunicação e Mestrado em Management Fashion em Business.

Arquivos


Este blog reflete única e exclusivamente a opinião do seu autor e não necessariamente o posicionamento jornalístico que norteia o Mundo do Marketing.

Acervo

Voltar ao Topo

Copyright © 2006-2018.

Todos os direitos reservados.

Assine o Mundo do Marketing Inteligência

Copyright © 2006-2018. Todos os direitos reservados. Todo o conteúdo veiculado é de propriedade do portal www.mundodomarketing.com.br. É vetada a sua reprodução, total ou parcial sem a expressa autorização da administradora do portal.

Auditado por: Metricas Boss