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Com ou sem Carnaval, não reforce estereótipos

A festa brasileira é marcada por grandes desfiles e carrega em si muito significado. Contudo, nós, que moramos no país tropical, sabemos que não é bem assim

Por | 21/02/2020

pauta@mundodomarketing.com.br

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Muito além do futebol, você já parou para pensar como o Brasil se tornou o país do Carnaval? A comemoração é a principal festa popular do mundo e está presente em diversos países. Acredite, também existe carnaval em Veneza, no México, em Aruba, no Canadá e - até mesmo - nas baixas temperaturas da Suíça, com suas canções típicas, fantasias tradicionais e ritos comemorativos específicos.

A festa brasileira é marcada por grandes desfiles, samba no pé e carrega em si muito significado. Talvez as novas gerações não conheçam o Zé Carioca, criado por Walt Disney em 1940 - quando o próprio esteve no Brasil. Ele é parte da representação estereotipada brasileira no exterior até hoje, com a típica malandragem de um país selvagem em constante festa. Mas nós, que moramos no país tropical, sabemos que não é bem assim.

Este ponto de vista limitado é reproduzido a cada vez que recebemos estrangeiros em eventos, como um `ritual obrigatório´, mostrando o que "de melhor" o país pode oferecer. A saborosa caipirinha e a linda `mulata´ com samba no pé, formam uma combinação que funciona há anos, não é mesmo?  

E qual seria o impacto sobre o uso do termo `mulata´ ou objetificação da mulher brasileira pelo viés inconsciente da construção idealizada do nosso carnaval no exterior? O país recebeu um número recorde de turistas em 2019, anos após a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa divulgar um estudo que aponta que aproximadamente 250 mil pessoas viajam todos os anos para o exterior com o objetivo de manter relações sexuais com menores de idade. Para muitos, as duas informações não se conectam, mas a realidade é outra.

Estamos em 11° lugar no ranking mundial de abuso e exploração infantil divulgado pela revista britânica The Economist em 2019 e somos o segundo país mais procurado para turismo sexual no mundo. Uma palavra que parece simples para muitos - como mulata - pode carregar um histórico de hiperssexualização e desumanização do corpo negro de um recente passado escravocrata.

Os comunicadores aprenderam em seus cursos de formação que a base dos significados de uma mensagem é feita da composição de elementos, como se fossem os tijolos de uma construção. Ao ouvirmos uma palavra acessamos o nosso sistema de crenças para darmos o significado a ela, sempre conectado a cultura do qual fazemos parte. Geralmente, é assim que nossas opiniões e experiências positivas ou negativas são formadas.

É importante tomarmos cuidado para não reforçarmos estereótipos, já que muitas vezes reproduzimos - mesmo que de modo inconsciente - o preconceito, permitindo situações alheias de discriminação. Com isso, perdemos a oportunidade de ampliar as experiências, de marcar positivamente nosso público-alvo. É importante valorizarmos o melhor de cada experiência, respeitando a todos e contribuindo com a construção de pontes que incluem ao invés de segregarem.

É na escolha dos detalhes e com profundidade de conhecimento onde a diferenciação acontece na comunicação. Por isso, nosso papel como comunicadores é tão importante. Temos responsabilidade sobre a mensagem, nós influenciamos as relações humanas, criamos experiências que tornam vivas as memórias.

Que tal valorizar a cultura dos pavilhões, a força das comunidades, a poesia dos sambas-enredo? Que tal respeitarmos as mulheres, o corpo negro, as culturas e até profissões que não são as nossas nas fantasias que vestirmos para festejar? Sim, somos o país do carnaval, mas não por conta da malandragem do Zé Carioca. O Brasil é o quarto país mais criativo do mundo, segundo pesquisa feita pela WARC Creative 100 realizada em 2019. Logo, é nossa responsabilidade ir muito além.

Por: Raphael Pagotto

Formado em Publicidade e Propaganda com Habilitação em Criação e possui especializações em Gestão de Projetos, Marketing de Relacionamento, Precificação de Serviços e Gestão de Marketing Digital, pelas Universidades Mackenzie e ESPM; e pelos centros de formação da Miyashita Consulting e Internet Innovation. Atua há 16 anos com Marketing de Serviços e já desenvolveu branding, estratégias de posicionamento, planos de comunicação e campanhas para empresas de pequeno e médio porte, em diversos setores. Hoje é Líder de Projetos em Sustentabilidade, Diversidade e Inclusão na MCM Brand Group, contribuindo com sua visão holística nas áreas de Marketing, Planejamento e Administração da agência. Pagotto apoia ainda iniciativas de inclusão e valorização de minorias, contribuindo em causas de pessoas refugiadas junto ao Integrare, no coletivo GAMES e no Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+


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