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O jeitinho brasileiro de ser e ter

A importância que os brasileiros dão aos objetos e às compras é um fato que vem chamando atenção do mundo há algum tempo. Somos uma sociedade de loucos por coisas

Por | 11/07/2016

pauta@mundodomarketing.com.br

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O ano era 2010. A Economia brasileira havia crescido 7,5% naquele ano. O desemprego encontrou os níveis mais baixos da história. Com o aumento da entrada de capitais e das reservas internacionais, o risco Brasil chegou a um ponto jamais visto. O futuro havia chegado.

Liguei para o Rio de Janeiro para desejar uma boa viagem para minha mãe. Ela, como milhares de outros brasileiros, estava partindo para Miami com as amigas para mais uma daquelas rodadas enfurecidas de compras. O Brasil era bom e a Flórida era o Paraíso. Gastava-se, me média, 6 mil dólares segundo pesquisa feita pelo Credit Suisse. Por conta do trânsito, minha mãe já tinha saído para o aeroporto. Angélica, empregada da família, atendeu:

- Michel! Sua mãe já saiu. Sim, saiu com uma pressa danada. Quase esqueceu a minha lista. Pedi umas coisinhas. Sabe como é, né? Pedi um perfume? Aqui não tem perfume como lá fora não! Tá achando que eu pedi Victória Secret. Claro que não. Victória Secret é o cheiro da pobreza. Coisa de pobre! Quero não, menino! Já passei dessa fase. Pedi JADORE. JA-DO-RE. Eu falo como tá escrito? Isso é francês? É o mesmo perfume da sua mãe. Estou fina né... Coisa de rico.  Tô toda boba!

A importância que os brasileiros dão aos objetos e às compras é um fato que vem chamando atenção do mundo há algum tempo. Somos uma sociedade de loucos por coisas. Foi isso que atraiu o olhar de Maureen O'Dougherty.

Em sua pesquisa, a antropóloga americana viu que independente das flutuações econômicas, da alta instabilidade, da mobilidade descendente de boa parte dos seus entrevistados, que se viam arrochados pelos sucessivos planos econômicos sem sucesso e pela alta concentração de renda, os brasileiros não deixavam de comprar. Era como se os membros da classe média se valessem dos itens de consumo para marcar sua identidade de classe e se distinguirem dos demais setores sociais. Além de dinheiro e renda, as coisas compradas também eram usadas como régua para medir o seu lugar no mundo. No Brasil, os bens são fundamentais para a construção da hierarquia social e "para definição do lugar e da identidade do indivíduo nessa hierarquia". Compramos para mostrar quem nós somos.

Estamos em 2016. Muita coisa mudou. A economia já perdeu o vigor e respira por aparelhos. Diante dos solavancos, da queda do poder de compra e da dificuldade de manter o padrão de consumo das famílias, vamos viver anos difíceis no Brasil.

As crises são momentos importantes para refundação das sociedades. No limbo, temos a chance de repensar valores, encontrar saída e nos reinventarmos. O biênio recessivo (2015/2016) achatará ainda mais os padrões de consumo e fará com que pobres, ricos e as camadas médias consumam produtos parecidos. Sem ostentar as "coisas de rico", as "coisas de pobre" e as "coisas de classe média" muitos não saberão mais quem é quem na estrutura social Brasileira. Teremos a chance de construir uma sociedade em que as coisas que a gente ostenta serão menos importantes do que a gente tem a dizer.

Viveremos anos mais favoráveis do que tranquilos!

Por: Michel Alcoforado

Michel Alcoforado, antropólogo e sócio fundador da Consumoteca, uma boutique de conhecimento especializada no consumo e nas tendências de comportamento do brasileiro


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