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Fim da publicidade infantil, começo de um mundo melhor

A partir desta conquista, muito do que era utópico, pelo menos em relação ao consumismo na infância, torna-se realizável. Quem sabe então podemos profetizar

Por | 03/07/2014

pauta@mundodomarketing.com.br

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"Os economistas não chamarão mais de nível de vida o nível de consumo. E nem chamarão qualidade de vida a quantidade de coisas". Quando Eduardo Galeano incluiu esta doce quimera em sua Utopia, a Resolução 163 do Conanda - Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do adolescente ainda não havia sido aprovada, reconhecendo como abusiva a publicidade dirigida ao público infantil. E não tínhamos, portanto, esta esperança renovada de que os economistas de amanhã poderão olhar o mundo com os olhos de quem teve uma infância livre hoje.

A partir desta conquista, muito do que era utópico, pelo menos em relação ao consumismo na infância, torna-se realizável. Quem sabe possamos então, inspirados por Galeano, ousar profetizar também, porém, num prazo mais curto. Assim, entre as tantas possibilidades de dias melhores para a infância, a aprovação da Resolução significa que milhões de crianças não mais terão desejos iguais sugeridos pelo marketing e sim escolherão brinquedos, roupas, alimentos e entretenimentos em quantidades razoáveis e movidas por suas motivações únicas e genuínas.

A infância será reconhecida como a matriz de toda vida saudável e genuinamente feliz, e as crianças terão prioridade absoluta como determina a Constituição Federal, sendo respeitadas em todos os aspectos de seu desenvolvimento. A incapacidade das crianças perante os atos da vida civil não será mais convenientemente ignorada em favor dos interesses comerciais e elas não serão mais abordada diretamente como consumidoras.

Garotinhas serão tão somente crianças, preferindo brincar do que comprar, usar maquiagem e imitar trejeitos erotizados. E escolherão o tipo de boneca que melhor corresponder aos seus anseios reais de criança, aproveitando a crença em seu fantasiar para treinar relacionamentos futuros. E a boneca estará ligada ao cenário da infância e não mais às passarelas e contextos adultos.

Meninos não serão induzidos a crer que para terem sucesso deverão beber, fumar, ser agressivos e se fazerem rodear de belas garotas. Porque não haverá mensagens lhes prometendo exatamente o que perderiam ao enveredarem pelo caminho do vício. Meninas não se deixarão ser exploradas sexualmente em troca de dinheiro para comprar os produtos anunciados porque estarão ocupadas em explorar os jardins da infância em busca de seu amor próprio1.

As decisões de compras da família não mais serão influenciadas pelas crianças porque a publicidade não mais as usará como promotoras de vendas dentro de casa, enfraquecendo o lugar da autoridade paterna e materna2. Os alimentos industrializados deixarão de ser vendidos como se fossem pacotes de presente ou atrelados a brinquedos, e a composição nutricional do produto terá maior importância que qualquer personagem que figure na embalagem.

O obesidade na infância deixará de ser uma epidemia3 e as crianças não terão vergonha de levar o lanche saudável de casa porque não haverá mais comerciais sugerindo que consumir ultraprocessados é mais divertido, moderno ou correto. Nas embalagens de alimentos industrializados, mensagens visíveis e bem maiores que o nome e a marca do fabricante, estarão alertando: "Este produto contém sódio, gordura e açúcar em quantidades que prejudicam a saúde e contribuem para o aumento da obesidade infantil".

Meninas e meninos não mais tomarão seus pais como maus por ensinar-lhes limites porque não haverá publicidades dizendo "sim" para tudo, incentivando comportamentos inadequados e hábitos consumistas em desleal concorrência com a orientação paterna. Crianças e adolescentes não desdenharão seu lar e sua própria família porque não haverá comerciais exibindo famílias perfeitas embora formadas por atores que nunca se viram antes.

As crianças brasileiras não mais figurarão nas pesquisas do Ibope como as que mais veem TV no mundo, mas, livres do assédio do consumo, serão campeãs de criatividade e de brincadeiras gratuitas produzidas pela própria imaginação4. Programas e aparelhos de televisão trarão impresso em local visível: "Antes de ligar, certifique-se de ter abraçado quem você ama, lido algum livro, passeado com seu cachorro ou brincado ao ar livre".

As políticas públicas em prol de espaços públicos e equipados para o brincar se multiplicarão com o respaldo legal e a consciência de que as crianças aprendem e se humanizam brincando. Irmanados com tantos países na busca da qualidade de vida por meio da preservação da infância, a publicidade dirigida às crianças seguirá restringida de tantas formas até ser completamente banida das programações infantis5.

As celebridades que tanto se beneficiam com a confiança e admiração dos pequenos, não mais usarão este privilégio para vender seus tênis, maquiagens, sandálias ou laptops. E quando entrevistarem, em seus programas, crianças com talentos especiais, não mais lhes perguntarão se já beijaram ou se estão namorando, enaltecendo, isto sim, a natureza ingênua do mundo infantil.

Crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade não mais serão alvo das mesmas mensagens dirigidas aos que podem consumir sem medida para que não cresçam acreditando que possuir os objetos de marca, mesmo que por meios ilícitos, os tornará mais aceitos e amados. Escolas não receberão mais personagens famosos para ensinar seus alunos sobre valores que ninguém melhor do que ela e a família podem lhes transmitir, e sem fidelizá-los desde pequenos a produtos e marcas.

Não haverá mensagens tirando proveito da noção de fragilidade que as crianças naturalmente têm, prometendo-lhes força, beleza, inteligência, poderes mágicos ou aceitação social em troca de sua fidelidade aos produtos anunciados. As crianças não terão mais pressa em abandonar a infância porque nenhuma mensagem as estará convencendo de que a felicidade é se tornarem o quanto antes consumidoras de produtos ligados ao universo adulto.

Não haverá crianças aprendendo a hostilizar e excluir porque não haverá comerciais de brinquedos propondo a violência e o egoísmo. E o verdadeiro conceito de vencedor triunfará nelas com a certeza de que, sem o outro, o jogo da vida não tem mesmo graça, nem pode continuar.

Pais e mães não mais acreditarão que brinquedos ou guloseimas aplacarão a falta que fizeram durante a jornada longa de trabalho e, na volta para casa, confiarão no calor de seu abraço e na força de suas palavras para preencher seus filhos do que eles realmente precisam.

Os índices alarmantes de depressão na infância e adolescência não serão mais agravados pela sedução do consumo porque, em lugar de buscar mais dinheiro para suprir tantos pedidos dos filhos, os pais redescobrirão o poder de seu amor e de sua presença como a única forma saudável de preencher o vazio de afeto.

As possibilidades de vir a ser de cada criança voltarão a ser infinitas porque não haverá mais mensagens sugerindo que o destino de cada menino ou menina se reduz a comprar, ostentar objetos e marcas, fumar, beber ou seduzir. Ao relembrar seu passado, os jovens não o reduzirão apenas a eventos onde esteve presente o consumo, mas recordarão as brincadeiras, as conversas durante o jantar, os natais em família, os amigos e traquinagens, as corridas na chuva, e até os tombos e arranhões virarão histórias que não se cansarão de contar.

Apoiados no consenso legítimo sobre os direitos da infância, vislumbraremos um mundo melhor onde, no embalo da canção, "as crianças cantem livres sobre os muros" e a infância dure o tempo individual de cada criança.

Os estrategistas de marketing reconhecerão a inutilidade de seduzir a infância para ganhar dinheiro, lembrando-se do tempo em que podiam ser donos do mundo por terem justamente de sobra o que o dinheiro não pode comprar: a magia da infância.

E depois de algum tempo, não haverá mais quem queira anunciar para as crianças porque o mundo estará mais humano e feliz, inclusive para os anunciantes. E as crianças viajarão livres pela fábrica infinita de brinquedos de sua imaginação, de onde sairão formadas na arte de amar, compartilhar, incluir, preservar, governar com justiça e comprovar os ganhos inestimáveis de uma economia cujo investimento seja maior no ser do que no ter.

                                                                                              

Pesquisa do *Instituto WCF - Brasil (Childhood) 2009, mostra que 65% das meninas que se deixam explorar sexualmente usando o dinheiro para comprar bens de consumo.

Segundo pesquisa Interscience, outubro de 2003, crianças influenciam 80% das decisões de compra da família 

Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE 2008/2009 indica que 33% das crianças brasileiras estão com sobrepeso e 15% obesas

Segundo Painel do Ibope, 2012, 5h22min é o tempo que crianças de 4 a 11 anos das classes ABC assistem televisão

Segundo ranking da revista The Economist de 2005, os 10 países com a melhor qualidade de vida têm restrições a publicidade para crianças

Leia também: Consumidores não se sentem à vontade com a publicidade dirigida às crianças. Pesquisa do Mundo do Marketing Inteligência.

Mídia | Marca
 

Por: Maria Helena Masquetti

Psicóloga do Instituto Alana


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