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Utopias enganosas

Alguns dizem que a ausência do marketing propiciará um mundo melhor, pois criaremos crianças mais felizes. Resposta ao artigo sobre o fim da publicidade infantil

Por | 17/07/2014

pauta@mundodomarketing.com.br

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Possivelmente visando a obter maior credibilidade para seu artigo intitulado "Fim da publicidade infantil, começo de uma vida melhor", a psicóloga Maria Helena Masquetti, do Instituto Alana, citou o ranking da revista The Economist de 2005, afirmando que os 10 países com a melhor qualidade de vida têm restrições à publicidade para crianças.

Pois a revista também estudou em 2013 e nem todos os dez têm restrições à publicidade infantil. Trata-se de "The Where-to-be-born Index". Entre os dez países considerados melhores, estão, por exemplo, Noruega, Suécia e Canadá, países frequentemente citados por terem leis que tentam impedir a publicidade infantil. Conseguem pouco quanto ao controle, pois a TV paga vem de outros países, além da diversificação e convergência dos meios, que levam as comunicações mercadológicas a quem quer que seja. Também não há nenhuma evidência de que os países limitadores das mensagens a crianças há mais de 30 anos, como a Suécia, tenham conseguido sucesso na redução da obesidade.

A prevalência de obesos maiores de 20 anos de idade, segundo o 2013 World Health Statistics da OMS, era de 18,2% entre os homens e 15% entre as mulheres suecas e, respectivamente, de 24,6% e 23,9% no Canadá e de 20,4% e 23,1% na Europa em geral, onde também existem restrições. No Brasil, eram 16,5% e 22,1%. Por outro lado, a obesidade no Japão não passava de 5,5% entre os homens e 3,5% entre as mulheres, apesar de todo o merchandising exibido nos programas infantis, por óbvias razões de diferenças na cultura alimentar e outros modos de vida. Também não passava de 5,3% e 11,1% na África, médias muito influenciadas pela fome.

Interessante, no caso do Brasil, é que 82,6% das calorias do açúcar de adição da nossa comida estão nas refeições caseiras, e não nos produtos industrializados, incluindo refrigerantes, segundo a Revista Brasileira de Epidemiologia. Convém mirar também nos piores países para nascer. Por questões de síntese, vejamos os cinco piores entre oitenta: Angola, Bangladesh, Ucrânia, Quênia e Nigéria. Será que a presença ou falta de publicidade infantil está influenciando alguma coisa por lá?

Mas como é que se constrói um país bom para nascer? De acordo com The Economist, são aqueles que permitem a uma pessoa desenvolver uma vida saudável, segura e próspera nos anos posteriores ao seu nascimento. Segundo o psicólogo Abraham Maslow, necessidades humanas devem ser satisfeitas: fome, sede, sono, sexo, excreção, abrigo, segurança, amor, afeição, pertencimento social, reconhecimento, autorrealização. E em todos os sistemas sociais e econômicos conhecidos, o consumo é imprescindível, desde as pinturas e vestes tribais até a venda de passagens de trem. Também para ir à Disneyworld de avião, eu acredito.

Somos 7 bilhões de habitantes. Necessidades e desejos se confundem. Sem consumo adequado, não haverá emprego e renda, investimentos privados ou estatais, educação elementar, desenvolvimento. Será possível transformar todas as mercadorias em commodities, sem diferenciação de marcas que permitam o atendimento às sutilezas deste mundo superpovoado, multifacetado e multiorientado? Como exerceremos nossa liberdade de escolha? Como será a vida deste "ser" imaginário, sustentado na miséria?

Quanto à melhor maneira de criar nossas crianças, vale citar a entrevista que Matthew Gentzkow, professor da Universidade de Chicago, concedeu a O Globo, em 27/4/2014: "Cruzamos dados de exposição à televisão com resultados escolares de 300 mil alunos para verificar seu impacto no desenvolvimento. Os que tiveram mais tempo de vivência com a TV tiveram notas significativamente melhores". Vários outras pesquisas sobre o valor da exposição das crianças às mídias eletrônicas e à publicidade estão relatados em "Será a Propaganda Culpada?" (Ed. 5W), de minha autoria. Depoimentos de pais e especialistas estão em www.somostodosresponsaveis.com.br. Sabe-se que a capacidade crítica das crianças entre 6 e 12 anos é variável conforme as circunstâncias culturais, econômicas e sociais.

Alguns dizem que a ausência do marketing propiciará um mundo melhor, pois criaremos crianças mais felizes. Não creio que a infância de Chico Buarque de Holanda, entre 1944 e 1956, quando a publicidade incentivava o desenvolvimento do pós-guerra e o Brasil se fazia mais urbano, tenha lhe trazido más lembranças, apesar do cinema, da TV (inaugurada em 1950), dos brinquedos aparentemente violentos, danças modernas e sexo oposto:

Agora eu era o herói, e o meu cavalo só falava inglês...

Eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões...

Guardava o meu bodoque e ensaiava o rock para as matinês...

No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido...

E você era a princesa que eu fiz coroar

E era tão linda de se admirar

Que andava nua pelo meu país...
 

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Leia também: Consumidores não se sentem à vontade com a publicidade dirigida às crianças. Pesquisa do Mundo do Marketing Inteligência.

Marca | Mídia

Por: Marcelo C. P. Diniz

Publicitário e escritor


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