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Reserva e os patrulheiros de plantão

A onda careta do politicamente correto pode ameaçar a criatividade e a autenticidade de marcas que caem na seara demagógica, por passarem a ter medo de se expressar

Por Gabriel Rossi - 06/11/2014

“Para entender melhor a simbologia de lavagem, acesse: www.usereserva.com/cuidadoscomaroupa. Ou dê para sua mãe. Ela sabe como fazer isso bem”. Esse recado no verso da etiqueta de uma camiseta da marca carioca Reserva vem dando o que falar. Extrapolou as redes sociais e foi parar em veículos de imprensa impressos. Uma chuva de críticas foi endereçada à marca e ao seu proprietário, Rony Meisler. Mas não vou cair neste modo politicamente correto de pensar e agir de muitas pessoas. Qual o problema? Até etiqueta de camiseta gera polêmica! Quanta besteira! Quanta ladainha! Fico estupefato!

“Machista” foi a classificação mais branda que Meisler e a Reserva receberam nas redes sociais. Os adjetivos foram daí para pior. Ele foi classificado de preconceituoso, lembrando a polêmica que se meteu no início do ano, quando a linha Use Huck, parceria da Reserva com o apresentador Luciano Huck, foi acusada de oportunismo depois de lançar a camiseta “somos todos macacos”, slogan da campanha iniciada pelo jogador Neymar logo depois de o jogador do Barcelona Daniel Alves ser alvo de racismo em campo.

Mas gostaria de entender: qual é o problema de uma mãe saber os códigos de lavagem de roupa? Mais: se a marca estiver indicando que mães sabem lavar roupa... o que isso tem de preconceituoso? Existe uma má vontade das pessoas para olharem as coisas com moderação. Sem eflúvios de radicalismo barato. Sem demagogia. Pergunto: Quantas dessas mesmas pessoas, quando soltaram as críticas, estavam vestindo roupas que suas mães tinham acabado de lavar? São, inclusive, mentirosos porque fingem uma aversão que não têm para alimentar os preconceitos que possuem.  Quantos desses patrulheiros de sofá podem dar aula de tolerância a alguém?

Saber lavar roupa não diminui uma pessoa. Muito menos saber os quase indecifráveis códigos. “Ah, mas é machista indicar que uma senhora lave roupa. Por que não indica o avô?”, pode vir a resposta. Onde, quando, como? Eu adoraria saber lavar roupa! Não, não é machista, não é preconceituoso. É fato: antigamente a responsabilidade de lavar roupas cabia à mulher. E isso em nada diminui o gênero. É essa lembrança que vem à cabeça das pessoas, não à de um senhor em frente à máquina de lavar roupas. É, sim, a prova de uma patrulha ideológica abusiva sobre o politicamente correto, um dos piores males do Brasil. Estamos sufocados.

A marca se explicou com a seguinte nota: “Gostaríamos - e temos por dever – de explicar que a nossa intenção com esse aviso é ressaltar que nenhum cuidado é tão especial quanto o cuidado de mãe. E que ninguém trata com tanto carinho da gente como elas. A última coisa que gostaríamos de transmitir é uma mensagem machista! Acreditamos que essa troca de opiniões é de extrema importância e ficaremos sempre muito atentos a ela”.

Explica em parte. Gosto muito mais da resposta de Meisler via Facebook. “Há 8 anos atrás (sic), quando montamos a Reserva e eu morava na casa dos meus pais, a minha mãe que lavava as minhas roupas, com todo o amor do universo (E eu tenho um baita orgulho de dizer isso)! Por isso, resolvemos imprimir nas etiquetas de composição de nossas roupas (aquela que vem com instruções de uso e lavagem): ‘Dê para a sua mãe que ela sabe como fazer isso’”.

Essa chatice sem fim do politicamente correto começa a afetar a criatividade das marcas que caem na seara demagógica. Uma onda careta do “nada pode” gera temor em se expressar. Está mais do que na hora de parar com isso. Pelo nosso bem e pela autenticidade das marcas. Lembrei de uma frase da protagonista de um filme do Rainer Werner Fassbinder ('O casamento de Maria Braun', se não me engano) que simplesmente faz todo o sentido nos dias atuais: "Quando estamos infelizes, toda felicidade alheia parece indecente". Em outras palavras, vamos viver nossas vidas e deixar os outros em paz. Faz todo sentido. Todo.

Reserva, politicamente correto

Por: Gabriel Rossi

Gabriel Rossi é palestrante, sócio fundador da consultoria em branding digital que leva o seu nome.