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Estado Digital e os webdesafios de Dilma Rousseff

Chegou a hora destes governantes assumirem uma nova postura em seu relacionamento com o público ao longo de suas gestões

Por Gabriel Rossi - 29/03/2011

Por Gabriel Rossi*

O ano de 2010 marcou o início efetivo do uso da internet no processo democrático nacional. Para o bem e para o mal, as tecnologias sociais e a web em si estiveram presentes na vida dos brasileiros de modo mais evidente, com os eleitores trocando informações, comunicando-se mais diretamente, entre si e com os candidatos. Se compararmos com o que acontece mundo afora, a utilização da rede ainda não atingiu plenamente a maturidade: a inclusão digital, por exemplo, é algo que ainda se desenvolve no país. Mas nem tudo são espinhos neste cenário - se planejar corretamente, o governo da presidente Dilma Rousseff, bem como os dos governadores que estão há pouco tempo em seus novos mandatos, podem elevar conceitos de gestão e democracia a um novo patamar com o auxilio da internet.
 
Chegou a hora destes governantes assumirem uma nova postura em seu relacionamento com o público ao longo de suas gestões. É o momento de explorarem um outro conceito: o de “Estado Digital” ou “Governo 2.0”. Dilma Rousseff é a primeira mulher eleita presidente no Brasil, o que lhe proporciona uma vantagem estratégica nas implementações de novas políticas e paradigmas - do ponto de vista do marketing, isto se torna ainda mais claro ao considerar que ela já é a mulher com maior relevância na história política brasileira, competindo apenas, talvez, com a princesa Isabel.
 
Assim como Dilma, as mulheres assumiram o poder na internet e é neste público que a presidente possui maior potencial de impacto em uma reestruturação da presença governamental. Elas já representam aproximadamente 47% dos usuários ativos da web, navegando mais de 39 horas por semana. Com uma análise mais detalhada, constatamos que uma camada muito específica entre a parcela feminina da população é a da mãe acima de 30 anos que trabalha e não tem muito tempo, mas que, quando utiliza a internet, o faz de modo extremamente eficiente, debatendo sobre produtos, serviços, seus filhos e também, claro, sobre política. Este talvez seja o público mais cacofônico da rede. A questão é como Dilma pode tornar-se incisiva para estas pessoas. Consolidar o diálogo com elas pode ser o primeiro passo para conceber na web as bases da nova gestão governamental.
 
Por sua intimidade com as novas tecnologias, outro público óbvio que poderia ser alcançado de modo muito mais eficiente com o desenvolvimento de políticas e processos de gestão via internet seria o juvenil. Hoje esta fatia populacional tem questões políticas muito claras a serem respondidas, deseja participar ativamente de debates sobre seus interesses e questões. Por exemplo, temas como o primeiro emprego, educação formal de qualidade, preparação para o vestibular, exército, gravidez indesejada e escolha da profissão são alguns dos assuntos mais relevantes para este segmento.
 
Todas estas questões envolvem políticas públicas claras e poderiam ser temas melhor explorados no processo de administração governamental. Como despertar o interesse desses cidadãos? A chave é criar um processo de escuta on-line extremamente profissional e identificar os formadores de opinião e entusiastas em cada ambiente, gerando conteúdo sempre fresco, estimulando, engajando e viabilizando a disseminação de informações para amigos e familiares. Ou seja, localizar, compreender e depois atuar, distribuindo mensagens inteligentes, pertinentes, que façam sentido naquele contexto. Para tanto, é crucial que aconteça uma mudança cultural e institucional dentro do próprio governo e também no papel do próprio cidadão. Este último já não é mais periférico - precisa estar ciente de seu papel e responsabilidades na sociedade, cobrando, sugerindo e participando de forma ativa de debates e propostas.

Obviamente, o conceito de governo 2.0 é algo factível e já vem sendo aplicado de forma bem-sucedida em outros lugares no mundo. Um bom exemplo, que apresentou resultados concretos, foi o E-People (Portal Online de Petições e discussões), criado na Coréia do Sul. Nele, o cidadão preenche um formulário anexando sua proposta ou petição, que é então enviada à agência competente e pode ter sua resposta checada pelo cidadão no próprio site. Quem acessa o website pode ainda propor agendas, participar de debates em fóruns, responder pesquisas e dar sugestões sobre melhorias públicas. O retorno destes trabalho surgiu em uma maior eficiência para identificar e resolver problemas, diminuição no tempo de resolução de petições e aumento na satisfação pública.
 
No Canadá, as agências governamentais possuem uma intranet bem planejada, com versão mobile do site oficial do governo. O governo utiliza ferramentas como Fickr, RSS, Youtube, Facebook, Twitter e Wikipédia para disseminar informações aos cidadãos. Já Austrália deu um passo importante ao publicar, em julho do ano passado, uma declaração de Governo Aberto, firmando um compromisso de apoiar e desenvolver o uso inovador de tecnologias oriundas da internet, com base no princípios de informação, envolvimento e participação. O site Cut Waste foi criado pelo governo de Cingapura para que a população do país pudesse sugerir aos orgãos públicos ações visando diminuir os gastos públicos. O objetivo do governo com esta iniciativa foi alinhar a prioridade dos investimentos às necessidades dos cidadãos, que podem conferir as sugestões enviadas e as estatísticas geradas em cada uma delas, divididas por setores. Desde seu lançamento, em 2003, o serviço recebe uma média de mais de 65 sugestões por mês.
 
Os exemplos apontam caminhos que podem ser explorados na estruturação de uma versão brasileira de um governo 2.0. Sempre com ressalvas, considerando que a realidade social, econômica, política e tecnológica do nosso país – em especial, considerando a necessidade de o governo desenvolver a infraestrutura primordial para a popularização da internet no país: a implantação do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL). O projeto é promissor e visa popularizar o serviço para a parcela da população com menor ou nenhuma presença digital, mas este avanço não implica necessariamente em educação digital do indivíduo. Isto também caberá às escolhas do próprio governo.

* Gabriel Rossi é diretor da Gabriel Rossi Consultoria e estrategista de marketing digital. gabrielrossi@gabrielrossi.com.br

Por: Gabriel Rossi

Gabriel Rossi é palestrante, sócio fundador da consultoria em branding digital que leva o seu nome.