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Peças figurativas de um espetáculo

Concorrência! Cabe às empresas promover uma cultura corporativa orientada para os mesmos princípios que ela quer ser reconhecida

Por | 19/05/2010

emonteiro@peoplemais.com.br

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Por Edmundo Monteiro de Almeida*

Faz uma semana ou duas, já não lembro bem, quando fui, meio a contragosto, apresentar um projeto (concorrência), em uma das maiores empresas de São Paulo. Para minha surpresa, estavam participando da concorrência 12 empresas de comunicação. O fato em si não devia surpreender-me, além de corriqueiro, hoje é prática comum de mercado.

O que chamou mais a nossa atenção, a minha e de alguns presentes, foi a fragmentação (perfil técnico e econômico), de algumas agências participantes. Vou tentar ser mais claro: quando falo em fragmentação estou avaliando o perfil, a disparidade técnica entre os concorrentes, refletida no pouco ou nenhum conhecimento da atividade, no seu core business e, na não comprovada experiência, muito distante da necessidade que se propõem atender.

Sem pré-julgamentos ou critica, paridade intelectual é o mínimo que se pode exigir numa qualificação. Já no fator econômico o conceito é outro, algumas agências fazem questão de proclamar que não participam de concorrências, que não alimentam a especulação do mercado, que só atendem uma demanda quando são convidadas, porém, a realidade é bem outra, por motivos diversos cada um justifica a sua presença.  

Outro detalhe, também corriqueiro, ninguém sabia da verba. É verdade! Um grande mistério, como se isso alterasse os rumos da criação, ou como se isso fosse um facilitador para a prática especulativa do nosso anfitrião. Alguns clientes devem achar que o saber, o conhecimento, do que eles querem gastar altera a qualidade da proposta. Devem achar que a criação pode ser vendida por metades, meia criação ou um quarto de criação, ou, que a qualidade do que é criado é proporcional ao valor investido. 

Um pouco mais de parceria, de confiança, não fazia mal a ninguém, no mínimo evitar horas e horas de trabalho. Temos uma única verdade, por mais simples que seja o trabalho, envolve tempo de fornecedores, tempo para pesquisar, tempo para criar, tempo de atendimento e, tempo custa dinheiro. Quem reclama inevitavelmente houve sempre a mesma resposta, acho que nem vale a pena reproduzir.

Em alguns casos, quando os clientes têm a consideração de justificar a não aprovação do projeto, quase todos, acham que o trabalho é maravilhoso, mas, há sempre um, mas, é caro, está acima das necessidades, enfim, milhões de desculpas e argumentos que todos nós conhecemos. Há uma grande verdade que todos devíamos lembrar, quando participamos das concorrências e não se recebe, ou melhor, quando o cliente não paga, dificilmente se reconhece a qualidade.  

Voltando ao velho assunto da concorrência, eu sei que é chato, porém é necessário para ilustrar o meu artigo, e também, para completar o cenário maravilhoso deste tema. Na apresentação era unanime a convicção entre os participantes que o vencedor já estava escolhido. Obviamente, nesta teatralização, todos nós éramos peças figurativas de um espetáculo que hoje se tornou uma prática antiética de mercado.

Mas não é esse o assunto que originou o meu artigo, ainda que ele tenha uma relação relativa com a frustrada concorrência. Na magnífica sala de reunião do cliente, quando da apresentação, fomos logo avisados que tínhamos um tempo limitado de apresentação, acho que mais ou menos trinta minutos para fazer a defesa do projeto. O primeiro choque, assustador, pior ainda, perigo de uma conotação de incompetência, não tínhamos levando cartões de visita suficientes para tantos participantes, espectadores.

É bom lembrar que o briefing foi passado por uma única pessoa, aliás, uma das últimas pessoas a entrar na sala, quando já eram decorridos alguns minutos da apresentação. O segundo detalhe, aliás, bastante importante no cerimonial da apresentação, quase todos os presentes portavam Smartphones (ligados), acho que Black Berry e Laptops, um verdadeiro festival de tecnologia, um verdadeiro espetáculo, de eficiência e comprometimento (tenho que ser justo), visto que a maior parte dos participantes olhava compulsivamente os emails nos seus celulares e digitavam rápidos, quase compulsivamente.

Fico mais tranquilo em pensar que eles digitavam alguns conceitos da apresentação, ou qualquer outra coisa, na verdade não deu para identificar. Mas não posso esquecer um detalhe, talvez o menos importante, a falta de respeito ou atenção com o apresentador, que se esforçava, berrava, para chamar a atenção de todos os presentes, absortos nas suas inovadoras tecnologias.

Há, já ia esquecendo um detalhe importante, o jovem executivo que liderava a reunião era um velho conhecido de guerra, um ex-aluno, figura controversa, polêmica, principalmente, no aspecto profissional, sempre (pouco), informado, altamente egocentrista, dono da verdade, jamais aceitando críticas e, como se diz no interior, dono de uma boa prosa.

Sem querer fazer julgamentos precipitados, rotulação, ou superestimar a capacidade do jovem executivo, devo esclarecer que não tenho nada contra o fator idade, ainda que todo o mundo questione a juniorização do mercado, acho até natural, desde que se respeitem as competências. O mínimo que se espera é que o profissional tenha realmente capacidade para poder representar a sua empresa e, principalmente, conhecimento para avaliar e aprovar com dignidade o trabalho das agências. Lembro que a capacidade de tomar decisões é fator preponderante no sucesso profissional, julgo que para as empresas não será diferente, porém, tenho as minhas dúvidas, esta não é a nossa realidade.

Mais que tecnologia, relacionamentos, os futuros lideres precisam ter humildade, conhecimento, reconhecimento. Precisam saber superar problemas corporativos, principalmente, precisam de pensamento critico, liderança e pensamento criativo.Políticas demagógicas, idade, tudo isto é relativo, porém, nada disto é suficiente, uma empresa só será competitiva se tiver gestores excelentes. Vanguarda global, na competitividade exacerbada que as empresas enfrentam, nos desafios que os novos líderes enfrentam, o mercado requer habilidades e competências especificas que nada têm a ver com idade. 

Todos já fomos jovens, todo o mundo vai envelhecer. O meu questionamento vai mais longe, o mercado, a sociedade, os preconceitos, a miopia empresarial, a ganância, são os principais responsáveis pela falta de competência que assola o mercado. Gente não é moda para ser descartada. A premissa é igual para jovens e para os mais velhos, aqui vale a competência, porém, achar que a juventude é sinal de modernidade, de inovação, é burrice. Da mesma forma, a idade não é sinal de competência, o que se questiona é o descarte do conhecimento, em função da idade.

O resultado está aí. Sem querer generalizar, as empresas, os seus profissionais, o mercado como um todo, estamos enfrentado uma realidade contaminadora, pior, uma realidade que em alguns momentos começa a ser questionada dentro das próprias empresas. É verdade, alguns dos nossos interlocutores começam a questionar os processos, as políticas, que são obrigados a utilizar, pior, não sabem com justificar ou lidar com elas, o desculpável constrangimento em nada ajuda na construção de parcerias.

Cabe às empresas promover uma cultura corporativa orientada para os mesmos princípios que ela quer ser reconhecida. Não podemos ir contra as grandes mudanças culturais, da mesma forma ninguém discute a sua necessidade frente às mudanças do mercado, somos sim contra as mudanças artificiais, míopes, criadas pelo modismo corporativo, esquecendo que a estratégia empresarial depende dos valores e de uma cultura empresarial, que respeite fornecedores, funcionários e, o contexto social onde a empresa está inserida.  

Estamos passando por um processo de credibilidade, sem querer dramatizar, acho até que se perdeu o referencial, vou mais longe, estamos vivenciando uma inversão de papeis, nós estamos mais preocupados com a qualidade do trabalho, que o cliente que paga a conta, parece obvio, mas, isso só acontece porque nós acreditamos na importância da marca, a do cliente e da nossa.     

Neste circo de faz de conta todos perdemos. Perdemos o senso critico, perdemos conhecimento, perdemos inovação, perdemos mercado, perdemos clientes. Os clientes também perdem, perdem bons profissionais, perdem boas agências, perdem qualidade de trabalho, perdem principalmente o respeito. Certa vez alguém perguntou para mim, por que não conversar com as lideranças das entidades de classe, onde clientes e agências estão representadas? 

Não sei! Talvez na cadeia de valores a nossa importância e representatividade sejam pequenas, talvez as nossas atividades de comunicação sejam consideradas secundárias, coadjuvantes da glamorosa publicidade, realmente não sei. Vivemos num mundo cada vez mais competitivo, um mundo focado em resultados imediatos, de curto prazo, a qualquer custo, um mundo regido por premissas, boas para uns, más para outros, esta é uma realidade que dificilmente mudará.

Ainda assim há vagas, estão abertas as inscrições para quem quer pensar positivamente, vagas para quem tiver disposto a brigar pelo respeito, pela qualidade, pelos nossos valores, vagas para lutar contra o pessimismo, lutar pelas nossas conquistas e reconhecimento do nosso trabalho.       

* Edmundo Monteiro de Almeida é Sócio - diretor das Empresas Peoplemais e PIC, Mestre em comunicação e Vice-Presidente de Desenvolvimento Setorial da Ampro.

Por: Edmundo de Almeida




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