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Ignorância, cumplicidade silenciosa e o avanço do grooming na América Latina

Crianças e adolescentes no Brasil fazem uso intensivo das redes sociais: regularmente 39% delas passam entre 1 e 4 horas conectadas por dia. Estes se tornaram o local ideal de reprodução para o desenvolvimento dessa prática perversa

Por Demian Falestchi - 16/11/2021

13 de novembro marca o Dia Mundial de Luta contra o Grooming. No Brasil, 91% das crianças se conectam diariamente à internet por meio de diferentes dispositivos, dos quais 86% o fazem por meio de um smartphone.  Essa facilidade com que eles acessam o conteúdo que gostam, traz consigo um grande problema: 88% dizem ter preocupações relacionadas à sua segurança ao se conectar.  

De acordo com o Portal insights* da Askids (1ª empresa de primeiros dados, insights e pesquisa para o segmento de crianças e adolescentes de 3 a 18 anos na América Latina), os adolescentes no Brasil estão mais conscientes dos perigos quando estão online, estão preocupados com o cyberbullying (51%), sua privacidade (46%), ver conteúdo inadequado (43%) e que seus dados sejam usados (35%). Isso pode ser por eles estarem mais informados dos perigos na Internet ou por serem usuários mais frequentes das redes sociais.  

As crianças mais jovens estão mais preocupadas em ver conteúdo inadequado (55%), privacidade (28%) e cyberbulling (27%). Passar muito tempo na internet é algo que não preocupa tanto as crianças (8%), mas certamente deve preocupar mais seus pais. 

Seus sentimentos não são exagerados, privacidade e exposição a conteúdos inadequados são a causa e consequência de uma prática que os atormenta cada vez mais a cada dia: o grooming (aliciamento online), que também crianças e adolescentes têm muito em mente, e 24% deles sentem preocupação com essa questão.
O aliciamento refere-se a comportamentos e ações de um adulto, através da Internet, para estabelecer um vínculo e exercer controle emocional sobre uma menor, a fim de abusar sexualmente dele ou dela. O aliciador finge ser alguém que não é.

Crianças e adolescentes no Brasil fazem uso intensivo das redes sociais: regularmente 39% delas passam entre 1 e 4 horas conectadas por dia. Estes se tornaram o local ideal de reprodução para o desenvolvimento dessa prática perversa, transformando um "risco virtual", em um perigo real, ao qual as crianças são expostas diariamente com consequências que podem ser psicológicas, físicas e até fatais.  Além disso, à medida que crescem, o tempo de conexão na companhia de um adulto diminui. Diante dessa situação, o risco é maior, uma vez que nenhum major pode prevenir ou intervir nesses elos criados, removê-los do perigo e denunciá-los.

Durante os últimos anos, o aliciamento esteve presente em muitas conversas e na mídia, trazendo alertas aos pais sobre os perigos mencionados. Em vários países da região, diferentes iniciativas surgiram para conscientizar e combater esse enorme mal.  

Segundo relatório recente da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), realizado em outubro de 2021, o México é o país com mais casos de cyberbullying na América Latina, seguido pela Argentina. O Brasil está em 6º lugar. Alguns dados alarmantes do relatório mostram que quase 80% das vítimas são meninas, com o fator agravante de que 86,7% dos casos de assédio correspondem a aliciamento e pornografia infantil. 

Entre os dispositivos mais utilizados onde esses casos ocorrem, estão smartphones. Por sua vez, o aplicativo mais utilizado pelos agressores é o WhatsApp, com 74,3% dos casos. Enquanto isso, Instagram, Facebook, Twitter, Zoom e Telegram são distribuídos, nessa ordem, os 25,7% restantes.

Os adultos muitas vezes querem que as redes sociais ou "o sistema" cuidem de seus filhos menores, desconectando-se completamente do assunto, enquanto estão conectados a plataformas voltadas para pessoas com mais de 13 anos (Instagram, TikTok,Snapchat, Facebook). Deixar uma criança de 9 anos em uma rede social +13 é como deixá-lo sozinho em casa com a porta aberta: qualquer um pode entrar. Não somos culpados de o mundo estar cheio de maldade, mas também não devemos ser facilitadores.

Com as ações eficientes de governos, sociedades, famílias e o apoio de ONGs, podemos esperar reduzir os casos, porém a responsabilidade também atinge o setor privado. As empresas são agentes de mudança, que devem promover ambientes seguros e boas práticas na internet para educar, entreter e transmitir valores, mantendo menores protegidos de qualquer predador em potencial. E aqueles que não querem entendê-lo, sabem que apoiam para que esses infortúnios aconteçam.

É hora de se conscientizar, mas seriamente, como líderes políticos, como família, como profissionais, como empresas, como sociedade. Cada minuto de exposição sem ação que passa, aumenta a probabilidade de que menores caiam no engano desses predadores. A consequência é o abuso sexual e psicológico: ter sua infância, sua vida roubada, você acha que não vale a pena? 
 

*dados de pesquisa online com 4840 respondentes entre 5 e 18 anos, realizada entre abril e julho de 2021.

Por: Demian Falestchi

CEO da Kids Corp