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Planejamento Estratégico

Se alguém estiver "Baikal Zen" não faça "cara de paisagem"

Se você nunca ouviu este termo, te apresento nesta imagem uma das paisagens mais impressionantes da natureza.

Por Betty Wainstock - 09/06/2021

O Baikal Zen é um fenômeno que pode ser encontrado no Lago Baikal, o mais profundo do planeta, localizado no sul da Sibéria, na Rússia, onde pedras parecem “flutuar” sobre a água. Não se trata de nenhum efeito 3D criado por um ilusionista qualquer de Las Vegas, mas sim de um fato real da natureza. Já vou te explicar mais a respeito e aonde quero chegar com o meu raciocínio ao te transportar para este ambiente tão frio. Pega um casaco enquanto te conto um pouquinho sobre algumas pesquisas qualitativas que venho desenvolvendo durante a pandemia. 

As empresas vêm investindo cada vez mais em estudos para conhecer o perfil psicográfico de seus diversos públicos alvo: quem são, o que sentem, o que querem, quais são seus medos e anseios, seus sonhos, expectativas para o futuro, o que fazem nos momentos de lazer, quais são seus hábitos de mídia, como se enxergam nas suas relações familiares, o quanto valorizam o trabalho, o quanto se percebem em suas atitudes: são otimistas? Pessimistas? Prevenidos? Impulsivos? E muitos outros pontos de interrogação... 

Conhecendo melhor seus Stakeholders, as empresas contam com ferramentas poderosas para planejarem conteúdos de comunicação muito mais precisos e lançarem ações de marketing bem mais efetivas. 

Nas entrevistas em profundidade e nos focus groups que venho realizando durante a pandemia, dependendo do recorte de perfil, percebo o quanto este difícil período pelo qual todos nós estamos passando desperta o desejo em alguns participantes de prolongarem a fala sobre si mesmos, indo além do que lhes é perguntado. 

Muitos não encontram interlocutores em seu dia a dia e, durante a pesquisa, enxergam um espaço confidencial, neutro e imparcial, onde podem "colocar para fora" sentimentos "escondidos lá dentro". Eles precisam "dividir" com alguém o que lhes acontece no dia a dia para terem forças de "multiplicar" ações para conseguirem seguir adiante. 

Noto que, em muitos discursos, tão doídos e tão comoventes em certos instantes, eles parecem estar se transformando em verdadeiros “Baikals Zens”. 

Vou revelar o segredo dos bastidores destas misteriosas rochas. Com o intenso frio da região, elas congelam na superfície do lago e são aquecidas pelos raios solares, fazendo o gelo abaixo delas derreter. Como os ventos no local costumam ser muito fortes, acabam dissolvendo o gelo de maneira desigual, gerando uma superfície côncava, onde o pilar da pedra permanece como suporte.?Achou complicado? Tudo parece muito simples diante da complexidade das pedras encontradas no inconsciente humano. 

Ao ouvir os entrevistados falando de suas vidas, suas dificuldades, a falta de esperança com o futuro, sinto como se as pessoas estivessem muitas vezes "sem chão", buscando por um suporte mais firme, fazendo malabarismos a todo instante para não escorregarem em um solo tão instável, que vai se dissolvendo a cada dia. 

Para uns, a segurança financeira se “derrete” porque ocorreu uma demissão, para outros a vida de um ente querido “se evapora”, e um verdadeiro sentido de “congelamento” vai "tomando conta" de tanta gente, fazendo com que muitos fiquem inertes por dias e dias, sem saber para onde ir e nem por onde (re)começar. 

Cada entrevistado é um mundo fascinante e, a cada pesquisa em que conheço um pouco mais das vidas de tantas pessoas, a minha vontade é a de poder penetrar no mundo pessoal de cada um, fazer uma verdadeira etnografia em seu entorno e gerar insights para transformar a sua dor em calor. 

Como isso não é possível pelas limitações metodológicas e outros tantos fatores restritivos que fogem ao escopo desenhado para cada projeto, fica o consolo de que a pesquisa por si só já representa um processo terapêutico para os participantes, na medida em que eles sempre encontram um interlocutor com a escuta 100% ativa, um olhar extremamente empático e uma postura totalmente compreensiva. 

Desejo que mesmo fora do contexto da pesquisa, todos nós possamos continuar ouvindo quem está ao nosso redor, dando a mão para quem precisa compartilhar sentimentos, permitindo momentos de desabafo e ressignificação da voz interior. 

Da próxima vez que você encontrar alguém “flutuando” como uma pedra de Baikal Zen, não fique indiferente. Ouça o que essa pessoa tem a dizer, ofereça o seu sorriso ensolarado para derreter a tristeza e estenda a sua mão para dar o equilíbrio que ela precisa. 

 

Por: Betty Wainstock

Sócia-Diretora do Instituto de Pesquisa Ideia Consumer Insights e Professora da ESPM- Escola Superior de Propaganda & Marketing betty@ideiaconsumerinsights.com.br