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Brinquedinho para adultos

Betty Wainstock e Ricardo de Castro falam da relação das pessoas com o celular

Por Betty Wainstock e Ricardo de Castro - 25/03/2009

Por Betty Wainstock e Ricardo de Castro*

Brinquedinho para adultos... inseparável, “segunda pele”, proporciona momentos de prazer, vibra... pode vibrar muito, ou, se você preferir, pode vibrar pouco, e quando você quiser. Pode fazer parte da sua intimidade, ser usado no carro, no banheiro, na cama... Você está pensando em que?

“Brinquedinho para adultos” foi o termo usado por uma jovem para descrever sua paixão pelo seu celular. Em seu blog, ela comenta: “O celular é a coisa mais útil e interessante de que tenho notícia nos últimos anos (...) alguns aparelhos são verdadeiras “revoluções” tecnológicas. Eu não imagino a minha vida sem um desses brinquedinhos para adultos”

O celular passou a ser alvo da afetividade do usuário tal é a intimidade que se estabelece com o aparelho e com os benefícios que ele proporciona. O celular, através dos telefonemas, torpedos, mensagens de texto, fotos e vídeos enviados instantaneamente, possibilita que a pessoa que o possui esteja sempre conectada com seus amigos, familiares e com outras pessoas ligadas ao seu trabalho. Hoje em dia, saudações de feliz natal e desejos de ano novo são transmitidas para toda a lista de amigos por SMS.

Alguns criticam o uso do celular, pois consideram que isso afasta o seu usuário do seu círculo social. Entretanto, segundo estudos da In-Stat, até 2012 o número de usuários que acessarão redes sociais pelo celular chegará a 975 milhões no mundo. E essa tendência só nos indica que já não é necessária a presença física “do outro” para “estar perto”. Aliás, muitas vezes, alguém “do outro lado da linha” encontra-se muito mais “alinhado” conosco do que alguém com quem se está fisicamente “ao lado”. E agora, mais do que nunca, teremos as pessoas “em nossas mãos”, seguindo seus passos através do Google Latitude, um serviço que permite cadastrar os dados de determinados amigos e familiares no celular e saber exatamente onde eles estão: www.google.com/latitude.

Os fabricantes, sempre atentos aos nichos e necessidades, não param mais de inventar. Para driblar a proibição de dirigir usando celular foram desenvolvidas várias tecnologias para suprir o “vício” daqueles que não conseguem largar “seu melhor amigo” por um momento sequer: fones bluetooth, integração viva-voz ou o Cell-Mate. Um bom exemplo de foco em um target específico é o do celular voltado para mulheres, lançado no Japão, que funciona da seguinte maneira: a usuária digita no aparelho a data da última menstruação e o celular liga para lembrar quando está na hora de colocar em prática a tentativa de engravidar. Para completar, o celular também traz receitas culinárias.

Ainda falando do Japão, o McDonald´s daquele país já aderiu ao código QR, colocando-o em suas embalagens. Atualmente, aproximadamente 84% da população do país, com idade entre 15 a 39 anos, utilizam o QR Code para acessar dados pelo telefone celular. Outra novidade japonesa é a possibilidade de utilizar o celular para escanear os códigos QR gravados em sepulturas que trazem informações, fotos e vídeos da pessoa falecida, de forma que se possa prestar uma homenagem que vai além de uma ou duas frases usualmente gravadas na pedra da lápide.

Em diversos países, torna-se cada vez mais comum a prática de efetuar pagamentos ou fazer pedidos via celular como se o mesmo fosse um cartão de crédito, possibilitando a realização de diversos tipos de compras. Para evitar roubos nas transações comerciais, uma empresa britânica desenvolveu um celular capaz de identificar a voz do usuário, vantagem que permite restringir a utilização do aparelho e evitar que seja usado por ladrões.

Em algumas cidades do Brasil já é possível adquirir um ticket virtual para ir ao cinema e evitar filas e também estabelecer uma conexão do celular com filmadoras de ambiente, artifício ideal para donos de empresas que viajam com freqüência e desejam monitorar suas fábricas e escritórios à distância.

Como pesquisadores digitais, nos parece fascinante vasculhar a web em busca de informações que nos apresentem uma radiografia do comportamento dos consumidores sobre os mais diferentes assuntos. Por uma questão de ética, não podemos revelar o que temos descoberto sobre as marcas que nos contratam, já que os relatórios de pesquisa são confidenciais e pertencem exclusivamente aos nossos clientes. No entanto, podemos compartilhar com você os depoimentos postados na web que hoje estão à disposição de qualquer internauta e que ilustram a relevância do celular e o quanto ele já se tornou um “amigo inseparável” de muitas pessoas em seu dia a dia:

“Sou escravo do celular! (...) Enquanto estou fazendo meu “serviço” no banheiro, fico jogando sinuca no celular”

“Eu me sinto pelada no meio da multidão se eu não estiver com o celular, passo o dia sofrendo”

“Sair de casa sem celular é a mesma coisa que sair sem cueca (...) meu celular é uma central de entretenimentos”

“Quando roubaram o meu celular senti como se tivessem roubado o meu pulmão!!!”

Essa comparação foi de fato criativa: um celular comparado a um pulmão! Enfim, as pessoas “respiram” pelo celular! Segundo o pesquisador Leonardo Abreu, essa ansiedade de estar permanentemente conectado passou a ser apelidada de “Crackberry”: “crack” por remeter ao “vício” e “Berry” em alusão aos aparelhos “Blackberry”. Nos anos 80, diversas empresas lançaram mão de um recurso chamado “telecommuting”, através do qual alguns trabalhadores eram dispensados para trabalhar parte ou toda a jornada de trabalho em casa. Isto exigia muita disciplina para separar o ambiente de trabalho do ambiente pessoal, que agora voltava a ser no mesmo lugar como nas guildas da era feudal. Hoje, não precisamos mais ficar presos a tomadas, pois a voz e os dados vêm pelo ar. Andamos com as nossas “mochilas” tecnológicas levando tudo que precisamos para nossas jornadas diárias.

O fato é que para os Crackberries essas “viagens” não terminam quando abrem a porta de casa. Leonardo Abreu faz uma comparação interessante com o Tamagoshi (pequeno bichinho eletrônico de estimação dos anos 90 do qual era necessário cuidar, “alimentando-o” de diversas formas). No caso do celular, este seria uma espécie invertida de Tamagoshi, pois é o dispositivo que “sacia” a ansiedade de seu dono.  É a assincroniscidade do e-mail que permite que dois indivíduos conversem cada um ao seu tempo. Em realidade, este tempo, devido a ubiqüidade desta tecnologia, toma de assalto o tempo e espaços antes destinados a atividades pessoais.

Portanto, mais do que nunca, é hora das empresas se conscientizarem da importância que esse meio de comunicação vem adquirindo na vida dos consumidores e do quanto ele pode transformar-se em uma ferramenta cada vez mais estratégica para as marcas. No Brasil, a J&J desenvolveu uma iniciativa de cross media que combinou a Internet e o celular para apresentar ao mercado a escova de dentes da linha Reach.

Outras campanhas recentes no Brasil também contemplaram o uso do celular, como foi o caso da empresa fabricante de carros Nissan, da Warner no lançamento do filme Batman, da promoção realizada para celebrar os 50 anos de Neston, da promoção realizada pela Sadia para a margarina Qualy, da promoção de Toddy, da campanha da Aymoré “Caçadores de Prêmios” e da Bohemia que estimulou os consumidores a colocarem o número do celular em banners espalhados em portais e eles depois recebiam um torpedo com a voz do mestre cervejeiro.

As parcerias entre marcas e fabricantes de celulares começam a tornar-se cada vez mais comuns, como é o caso da Unilever, que em parceira com a Nokia, criou o Nokia 3210 Rexona Men Quantum que oferece temas especiais e jogos relacionados ao desodorante Rexona Men Quantum. Pela vantagem da mobilidade e interatividade, a publicidade no celular se tornará cada vez mais freqüente e eficiente.

A conexão “afetiva” com o celular tem crescido tanto que não nos espanta que algum fabricante de celulares crie em breve um modelo que permita ao usuário atender as chamadas sem parar de transar! Estamos falando sério. Uma pesquisa de âmbito internacional realizada pela Proximity Worldwide e pela agência de publicidade BBDO chamada Wireless Works - Exploring New Brand Connections, que teve como objetivo compreender a relação dos consumidores com seus celulares descobriu que, em média, 14% dos usuários interrompem o ato sexual para atender o celular, sendo que este índice é ainda superior em alguns países da Europa. Fica aí uma inspiração para um “aperfeiçoamento” do Google Latitude. Um serviço que poderia especificar não apenas onde alguém está, mas literalmente o que está fazendo, para não ser interrompido em horas “impróprias”!

* Betty Wainstock é Doutoranda em psicologia pela PUC-Rio na área de tecnologias, comunicação e subjetividade e psicóloga pela UFRJ, é professora do curso de graduação e pós-graduação em comunicação & marketing da ESPM e Ricardo de Castro é mestre em comunicação social e cultura pela ECO/UFRJ, mestre em psicologia pela PUC-RIO e MBA em administração de empresas pela COPPEAD. Ambos são sócios-diretores da Ideia Consumer Insights.  www.ideiaconsumerinsights.com.br

Por: Betty Wainstock e Ricardo de Castro

Betty Wainstock é Diretora de Pesquisa de Marketing e Ricardo de Castro é Diretor de Planejamento e Inteligência Digital da Ideia Consumer Insights.