Branding: União marca a família, vizinhos e comunidade | Mundo do Marketing

Publicidade

Patrocínio

Publicidade
Publicidade Publicidade
Mundo do Marketing Inteligência

Artigos

Branding: União marca a família, vizinhos e comunidade

Histórias Marcantes - Afetos entre Marcas e Pessoas

Por | 07/10/2010

augusto@bbnbrasil.com.br

Compartilhe

Por Augusto Nascimento*

Era meados dos anos 60. Eu devia ter uns 13 anos. Morávamos numa rua tranquila com muitos vizinhos. Minha mãe Maria cuidava dos meus irmãos menores, uma menina e o caçulinha, além de cuidar da casa, como toda mãe fazia naquela época. Ela costurava, lavava, passava, fazia nossa comida e fazia muitos doces deliciosos. Sempre havia variedade e quantidade de docinhos em nossa casa, além dos salgadinhos que mamãe fazia para vender, trabalhando todas as tardes e noites, sem descanso. 

Tudo era feito para abastecer a venda do pai, o "seu" Luiz da Venda, como ele era chamado na cidade. Na venda - uma mistura de bar, doceria, armazém, salão de bilhar e campo de bocha (que todos os fregueses falavam "bótxa!") - vendíamos quase de tudo: baldes, panelas, fumo de corda, corda mesmo, enxadas, vassouras, bebidas e também os docinhos e salgadinhos da dona Maria. Meu pai comprava mercadorias de todos os viajantes que vinham de longe e complementava com os doces e salgados que minha mãe fazia em casa.

Eu mesmo levava os doces e salgados para a venda todas as manhãs. Meu pai recebia e colocava os doces nas vitrines e os salgados na estufa, para que ficassem sempre quentinhos. Depois do almoço, se sobrava muitos doces que ainda não haviam sido vendidos para a freguesia que vinha até a venda, meu pai preparava uma cesta com parte deles e eu saía nas ruas para vender de casa em casa gritando bem alto de porta-em-porta: "Olha os docinhos da dona Maria! Olha os docinhos da dona Maria!, É uma delícia e custa baratinho!".

Eu adorava fazer toda aquela "propaganda" porque sabia que os doces feitos pela mamãe eram um enorme sucesso. Os doces eram grande sucesso nas casas da cidade, pois eu sempre voltava no final da tarde com a cesta vazia e os bolsos cheios de dinheiro miúdo. E eram grande sucesso na venda do meu pai. Atraiam famílias inteiras, especialmente aquelas com crianças pequenas. Muitas famílias saiam da roça - dos seus sítios, chácaras e fazendas - para vir até a cidadezinha fazer compras de coisas variadas que precisavam em suas casas, ou que achavam que precisavam. E já que estavam na cidade, davam uma passadinha na venda para deliciar-se com os famosos docinhos da Dona Maria.

Minha mãe era ótima cozinheira e doceira. E uma mulher muito católica e generosa. Sempre dava uma quantidade de doces e salgados para as vizinhas, tanto da casas dos lados da nossa, quanto para o vizinho da casa da rua em frente. E a amizade da minha mãe com nossas vizinhas enchia nossa casa de alegria, conversas e fofocas.

As vizinhas sempre vinham ajudar. Enquanto algumas ajudavam nos doces, outras ajudavam com a massa e o recheio para os salgados. E as crianças das vizinhas também vinham brincar com a gente. Ficávamos no quintal aprontando artes e esperando as mães chamarem para provarmos os doces e salgados. Era uma espécie de festa que terminava à noite e recomeçava no dia seguinte. Eu mesmo, de manhã, ia para venda e, à tarde, corria para vender logo toda a cesta, pois queria ir bem depressa pra casa para brincar e provar os docinhos da mamãe e suas amigas.

Um dia, vi no latão de lixo de casa, uma embalagem branca escrito União em tamanho bem grande e nas cores verde e vermelho. Era um saco de açúcar de cinco quilos e bem embaixo, no canto, havia um desenho que parecia um selo de correio, com muitos textos escritos e uma palavra bem grande: Grátis! Pronto, fui fisgado e peguei o saco para ler. Estava escrito que bastava recortar e enviar 10 selinhos iguais àquele para ganhar um livro de receitas do Açúcar União. Fiquei alguns minutos meio surpreso e muito feliz. Ali estava uma grande oportunidade para mim, para minha mãe e para suas vizinhas e amigas.

Há algum tempo eu e minha irmã mais velha, que tinha 15 anos, fizemos uma tentativa para que nossos pais aprendessem a ler e escrever. Sabíamos que meu pai até que lia devagar e escrevia o seu nome, mas minha mãe, que nos dizia que lia alguns trechos da Bíblia, comprovamos que, de fato, ela não conseguia ler. Tinha a Bíblia em casa, mas era um símbolo da devoção a Deus. Ela frequentemente abria as páginas e ficava um tempão orando em silencio com livros nas mãos. Então, assim que abriu a escola de adultos, uma obra da igreja para ajudar as pessoas que não tinham tido a chance de ir para a escola quando eram pequenas, praticamente arrastamos os dois para assistir as aulas. Mas não deu certo, porque eles não sentiam qualquer falta de leitura e escrita no dia a dia e, mais sério, a professora tratava os alunos adultos como se fossem crianças. Meu pai e minha mãe não gostaram nada daquilo e abandonaram logo na segunda aula. 

Agora eu via uma oportunidade diferente de voltar a ensinar minha mãe a ler e a escrever. Ela poderia aprender a ler, lendo receitas do livro do Açúcar União. E podia escrever as receitas para as amigas, que afinal sempre pediam as tais receitas para ela, que até então eram receitas meio secretas e minha mãe dizia: "vai um pouquinho disso, um pitadinha daquilo e um tantão de carinho". Na prática, ela sabia tudo que havia aprendido com minha finada Vovó, mas estava tudo na cabeça. Nada no papel, pois não sabia ler e nem escrever, tal qual a sua própria mãe. 

Ainda com a embalagem do Açúcar União nas mãos, fui falar com minha mãe para que ela não jogasse mais as embalagens vazias no lixo. Fui pedir que guardasse para mim, pois eu e os meninos iríamos usar para brincar. Ela concordou sem se opor, pois queria mesmo que ficássemos brincando sem sair para a rua. Desse modo, fui juntando os selinhos ou cupons. Quanto estava com sete deles comecei a ficar ansioso e resolvi acelerar o processo.

Embora a mamãe sempre mandasse buscar um saquinho de açúcar de cinco quilos por semana - e era eu mesmo quem trazia da venda do meu pai - achei que seria melhor pegar de uma única vez os três que faltavam para completar os 10 selos. Minha mãe ficou muito brava comigo quando viu que tínhamos em casa três sacos de açúcar abertos e apenas um em uso. Eu havia rasgado as embalagens para obter os selos ou cupons. Não me lembro se levei uma surra ou não, mas que minha mãe ficou muito brava, isso ela ficou.

Meu pai soube de tudo. Eu disse a ele que iria pegar três embalagens na venda ao invés de uma só, como era o costume. Expliquei a ele que precisava também de envelope e papel de carta. E contei que iria dar um presente-surpresa para a mamãe. Ele deu tudo o que pedi e prometeu que manteria segredo até chegar o livro de receitas que eu queria dar de presente para ela.

Fiz a cartinha. Algo tipo "Prezada União, estou enviando os selos e pedindo o livro grátis prometido. Por favor, mandem logo, pois ele será muito útil para minha mãe. Ele não sabe que vai ganhar. Vai ser uma surpresa!". Fui ao prédio do correio e fiz a postagem. Agora era aguardar que o livro chegasse logo. Os dias que se passaram pareciam uma eternidade. Eu e minha irmã ficamos ansiosos com a espera e, enquanto aguardávamos, começamos a inventar secretamente muitos modos de usar o livro para ajudar a mamãe aprender a ler e escrever.

Mais ou menos um mês depois o correio entregou o livro na nossa porta e foi a própria mamãe que recebeu o carteiro. Como não sabia de nada, achou que era engano. Já estava dizendo para o carteiro levar de volta quando minha irmã entrou na conversa e explicou que a encomenda estava sendo entregue na casa certa. Naquele momento eu também cheguei até a porta. Mesmo com minha mãe ainda desconfiada, contamos que era um presente nosso para ela. Sua face mudou completamente. Não pelo livro, mas pela atitude dos filhos de dar um presente para ela, uma prova de afeto. E então ela disse: "Mas não é meu aniversário!!!". E todos felizes rimos muito, inclusive o carteiro.

No dia seguinte, nossa casa virou uma grande cozinha-escola. As vizinhas ficaram encantadas com o tal do livro que os meninos da Dona Maria haviam dado de presente para ela. "Deve ter custado bem caro, pois o livro era todo cheio de fotografias coloridas" - disse uma delas. E uma outra disse algo mais forte: "É mais bonito que a Bíblia com letras e figuras somente que eu tenho lá em casa, que não tem nenhuma corzinha".

Minha mãe repreendeu rapidamente essa vizinha dizendo: "Não blasfeme. É um livro bonito sim, mas nada é tão bonito quanto à Bíblia!". O mal estar passou logo, porque eu e minha irmã imediatamente começamos a ler, uma a uma, as receitas novas que aquelas mulheres não conheciam. Foi nossa primeira grande aula. Eu e minha irmã nos sentíamos verdadeiros professores. E estávamos encantados em, sendo ainda crianças, estar ali ensinando aos adultos.

Aquelas aulas viraram uma rotina para minha mãe e para as vizinhas. As crianças um pouco maiores também participavam. Todos estavam ali para ouvir as receitas, para escrever as receitas e para repetir a leitura até que pudessem fazer os doces tendo dominado as artes de ler, escrever, enfim, apreender o conhecimento prático da verdadeira arte da doçaria.

As vizinhas também queriam ter um livro de receitas igualzinho àquele. Então explicamos como poderiam ganhar. Ajudamos para que elas mesmas pudessem escrever para o Açúcar União pedindo cada uma o seu próprio livro de receitas. Foi uma experiência marcante para toda minha vida para toda a vida de minha irmã, como ela me confessou recentemente.

Não me lembro quanto tempo duraram aquelas aulas. Mas lembro-me que o livro que dei de presente para a minha mãe, na verdade, deu-me um dos maiores presentes que ganhei em toda minha vida: Ganhei a aprendizagem de que somente a verdadeira UNIÃO faz a alegria das pessoas que são importantes para a gente. Assim, desde então, sei que a UNIÃO é doce. E a desunião amarga.  Desde então vivo minha vida tentando promover a UNIÃO.

* Augusto Nascimento, homenagem à memória de sua Mãe, Maria Baldo do Nascimento.Parte do livro Histórias Marcantes - Afetos entre Marcas e Pessoas, que está em processo de escrita para futuro lançamento. Augusto Nascimento é CEO da BBN Brasil.

Por: Augusto Nascimento

Consultor de Branding e Marketing da Innovax-BBI Consultoria, do Grupo BBI


Comentários


Acervo

Pesquisar por Tags

Inteligência Inteligência

Publicidade

Voltar ao Topo

Copyright © 2006-2019.

Todos os direitos reservados.

Assine o Mundo do Marketing Inteligência

Copyright © 2006-2019. Todos os direitos reservados. Todo o conteúdo veiculado é de propriedade do portal www.mundodomarketing.com.br. É vetada a sua reprodução, total ou parcial sem a expressa autorização da administradora do portal.

Auditado por: Metricas Boss