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Marketing e as reflexões iniciais sobre o mercado social

O desafio que o marketing coloca para sociedade como um todo, e para os estados (seus governantes e políticos profissionais), sobretudo, tem a ver com seu próprio desenvolvimento

Por | 22/03/2016

pauta@mundodomarketing.com.br

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Quem conhece um pouco de jogos sabe que a cada dia as imagens, os cenários, a jogabilidade, a aproximação histórica e os diálogos que fazem parte dos jogos eletrônicos estão mais impressionantes, realistas e imersivos. Os jogos eletrônicos movimentam bilhões de dólares, anualmente, envolvendo milhares de profissionais, incluindo atores que emprestam suas vozes, suas feições... Jogos como Batman (Arkham City...), God of War, Assassin´s Creed, Red Dead Redemption, dentre outros, trazem uma nova perspectiva ao mundo dos games. Ao mercado dos games.

O envolvente jogo Red Dead Redemption, que é ambientado nos tempos do velho oeste americano, com seu simpático e inesquecível personagem John Marston, merece destaque, aqui, devido a um diálogo que ocorre entre uma mulher que teve sua família destruída por bandidos. Quando o xerife da região se aproxima dela e de alguns poucos sobreviventes, é recebido pelas seguintes palavras: "Eu pensei que você deveria nos proteger! [Mas] Você não é um homem do povo! Você não é nada! Você é apenas um homem na folha de pagamento do governo, levando o dinheiro que o restante de nós tem de pagar com nossas vidas! O que está errado com este país?"

Pois é isso. O marketing, enquanto uma área intrincada de estudos sobre as pessoas, suas necessidades e desejos, e as formas de satisfazer a essas demandas, cada vez mais vai se firmando como uma ciência cujo objeto são as pessoas e, não mais tão acentuadamente, os produtos, o mercado. O desafio que o marketing coloca para a sociedade como um todo, e para os estados (seus governantes e políticos profissionais), sobretudo, tem a ver com seu próprio desenvolvimento.

Ao longo do percurso de sua organização como um campo próprio de estudos e atuação, o marketing focou, em dado momento, o produto; depois, o cliente. O foco desloca-se, agora, para a pessoa além do cliente. Na sociedade, porém, como preconizara Marx, o movimento parece se fazer, e cada vez mais intensamente, no sentido oposto: as pessoas vão sendo coisificadas; suas relações vão se caracterizando por relações de trocas utilitárias; o império do egocentrismo vai suplantando a sociabilidade, sob o disfarce da democratização das expressões de ideias... Características que se manifestam na política.

Os políticos, em um número cada vez maior, atualmente, tal como mercadorias, não apresentam qualquer defeito; são moldados para agradar ao público, ao "cliente". Procuram, através de truques publicitários, estudos de mercado, técnicas de convencimento e venda, seduzir o público, o consumidor travestido de cidadão. O cinismo na política é uma tônica, a tal ponto que não poucos políticos aceitam fazer-se passar por tolos (por inocentes, ingênuos que foram enganados) a admitir que sabiam e compactuaram com ações desonestas (é só lembrar os inúmeros escândalos cujos supostos envolvidos políticos afirmam desconhecer sua existência).

Os jogos políticos insistem em colocar em cena Maquiavel e sua teoria da separação entre moral e política, ou substrato ético transcendente frente à prática política tecnicamente efetiva. Contudo, Maquiavel tentou apresentar a ação política como ela verdadeiramente seria: uma ação que só pode ser avaliada a partir do alcance efetivo de seus fins, sejam eles conquistar o poder, conservar o poder ou promover o bem comum. Todavia, pode ocorrer um desvio de finalidade, e o que se procura passa a ser o poder pelo poder em si, representado pelo acúmulo de bens. Esse desvirtuamento já foi apontado por Milton Santos, quando o eminente geógrafo discute a passagem da "política dos estados" para a "política dos mercados". E, conforme o marketing alerta, atualmente, tudo pode ser comercializado.

Nos jogos eletrônicos, o trecho anteriormente destacado em Red Dead Redemption ilustra a encruzilhada: com o descolamento de suas finalidades, em função de seus projetos de poder - mensurados pelos contracheques e benesses decorrentes - um contingente significativo de políticos passa a ser apenas nome em listas de pagamentos ou de propinas; pagamentos e propinas que, para cúmulo dos cúmulos, são bancados por aqueles que deveriam ser alvos e beneficiários dos projetos políticos, dos planos governamentais e, não, suas vítimas.

A sucessão de escândalos, que lembra uma linha de produção que não pode parar, consegue, justamente por sua sucessão interminável e escalada de dimensão (afinal, os rombos, desvios, etc., não se fazem mais na casa dos milhares, mas dos milhões, dos bilhões!) levar a uma aceitação tácita: "É assim mesmo!" "Não tem mais jeito!" Parece a aplicação prática da frase que afirma que uma mentira repetida mil vezes acaba se transformando em verdade (frase atribuída por uns a Goebbels, por outros a Lênin...). Quer dizer, no início há uma indignação; depois, com a sucessão dos escândalos, um acostumar-se.

O marketing discute as demandas, quer dizer, a existência de mercado consumidor de algum produto - qualquer produto. Quando fica cada vez mais patente que homens públicos estão usando seus cargos para fins privados, e quando as vidas privadas estão sendo cada vez mais publicizadas em redes sociais, começa-se a entender a mercantilização a que as pessoas estão submetidas. Por isso, a frase do game: "Levam um dinheiro que temos de pagar com nossas vidas!"

Então, quando se perde a própria capacidade de indignação, quando tudo passa a ser admitido, quando tudo passa a ter um preço, quando a realidade não é mais compreensível, a pergunta tem de vir da ficção: "O que está errado com este país?"

Por: André Fassa

Presidente da ADETEC (Agência de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico de Lins e Região), Consultor, Mestre em Gestão da Educação e Docente Universitário


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