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O Jazz e o Mundo Corporativo

Jazz e organizações podem identificar, sem esforços, profissionais de grande criatividade.

Por | 01/12/2010

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Por André Acioli e Luiz Henrique*

Você gosta de Jazz? ... Não precisa responder.

Se você não ouviu esta pergunta, provavelmente ainda não ocupa cargo executivo de destaque na empresa em que trabalha. Isso porque nove entre 10 executivos de destaque adoram ouvir Jazz (ou dizem adorar). Esperamos que não tenha ficado assustado! Esta pesquisa não tem nada de científica. Foi realizada por nós mesmos, em contatos informais com executivos das nossas próprias redes de relacionamentos. Cabe, portanto, a prova dos nove.

É bem provável que para os músicos de Jazz pouco importa o quanto este estilo tem a ver com o mundo corporativo, mas para os que apreciam o Jazz, saber as possíveis correlações entre um e outro talvez seja, no mínimo, motivo para ouvir boas músicas. Pois a partir de agora, vejamos algumas.

As Big Bands, por exemplo, eram grandes orquestras compostas por músicos em número de doze a vinte e cinco. Marcaram uma época e tiveram grande sucesso até a revolução do Bebop. No mundo organizacional moderno existe o mito de que trabalhar em grandes grupos é praticamente impossível. Por quê? Excesso de vaidades, falta de liderança ou inexistência do entendimento de um objetivo comum? Por que nas Big Bands grandes grupos davam certo e nas organizações não? As Jam Sessions, nome que deriva de Jazz After Midnight, por começar após a meia-noite e não ter hora para terminar, são famosas por serem verdadeiros espaços para duelos de improvisação entre músicos, principalmente sax tenoristas.

Quando falamos em improviso, é possível que o nosso leitor imagine uma sucessão de acordes que, por mais bem que fossem tocados, eram frutos de inspiração, ali, naquele exato momento. Se você acredita nisso, engana-se. Tamanho era o conhecimento que, apesar de gerados ali, os acordes ouvidos já haviam sido planejados e avaliados, segundos antes. No improviso praticado pelos grandes do Jazz, a inspiração contava muito pouco; valia sim, a velocidade de implementação.

No mundo corporativo não é tão diferente. "Gênios" improvisam, mas ser "gênio" requer esforços incomuns para ter a melhor resposta no menor tempo e, para isso, muito há que se estudar, praticar, tentar. Talvez seja cômodo não ser "gênio".

Duke Ellington era um desses gênios. Foi arranjador, compositor, pianista e líder de orquestra e, tinha excelência em tudo o que fazia. Um grande exemplo da capacidade humana de se fazer muitas coisas e bem. Só por curiosidade: como é visto o colaborador que "faz tudo bem feito" na sua organização? Neste exato momento, você deve estar se lembrando dele: agitado, mesa cheia de papéis, por vezes, sequer almoça e, acredite, raramente é promovido! Seria demais inferir que, no mundo moderno, excesso de competências é castigo?

Jazz e organizações podem identificar, sem esforços, profissionais de grande criatividade. Destes, muitos esbarrarão em questionamentos e dificuldades que os inibirão a continuar a busca pela implementação de suas criações; outros poucos, não se darão como vencidos até que as idéias valiosas se transformem em atos e fatos. Da perseverança deste tipo de músico registram-se avanços em harmonia, melodia, timbre, ritmo, arranjo, fraseado.

Valorizada por dez entre dez músicos do Jazz, a inovação também o é por nove entre dez empresas. Criatividade é importante, mas nada modifica se não for implementada. A confiança e a ousadia em implementar estas novas idéias é que transforma uma pessoa criativa em inovadora.

Coragem para mudar. Mudar pressupõe abrir mão do status atual; envolve perdas reais e ganhos potenciais. Não há que se culpar a natureza das pessoas; há aquelas mais ousadas, dispostas a arriscar mais e outras, mais conservadoras. Como qualquer investimento, seja no Jazz, na Bovespa ou nas empresas, os ganhos tendem a ser proporcionais aos riscos. Assim, acomodar-se é uma forma de se ver condenado a pequenos ganhos.

Ficar mais velho é sempre uma preocupação dos profissionais do mundo corporativo ocidental. Não sabemos se pela necessidade de viver a vida intensamente ou por entender que a arte não sofre com as fronteiras do tempo, tal preocupação parece não existir entre os músicos de Jazz. Grande parte deixa o convívio terreno precocemente (sobre alguns deles, falaremos mais adiante); outros, como o nonagenário Clark Terry, e o octogenário Lee Konitz, por exemplo, continuam a tocar, e bem, ainda hoje. Hank Jones que trabalhou até os 93 anos, faleceu no último mês de maio, em plena atividade. Que não no Oriente, quantos profissionais, em plena capacidade produtiva são considerados obsoletos pelo mundo corporativo e, compulsoriamente, aposentados?

O Jazz, assim como as empresas, registra "colaboradores-problema". Viver muito em pouco tempo. Para alguns, como Billie Holiday, Charlie Parker e John Coltrane, a máxima dos excessos foi levada ao pé da letra. Billie faleceu aos 44, Parker, antes de completar 35 e Coltrane, com pouco mais de 40. Talentos apagados em pleno auge das carreiras; colaboradores perdidos por rotulados "perdidos", em plena capacidade produtiva.

Por outro lado, o Jazz nos proporciona exemplos de artistas que se destacaram pela solicitude e competência; "talentos do bem" como Ella Fitzgerald, por exemplo. A artista morreu aos 80 anos de idade, em 1996, com esta mesma fama. Johnny Hodges, saxofonista de primeira linha, tocou na banda de Duke Ellington por mais de 40 anos, sendo um dos seus destaques até falecer, em 1970. Dois exemplos de talentos reconhecidos e mantidos. Colaboradores que permaneceram nos quadros das organizações em reconhecimento às suas capacidades produtivas.

Investir, recuperar ou demitir? Como fazer para reter talentos e aumentar o ativo
intelectual da empresa? Estas são discussões que permeiam mais do que corredores e salas; são decisões que podem estar associadas aos valores da própria empresa, à visão do seu papel na sociedade e à própria sociedade em que está inserida.

Art Tatum era cego de um olho, Thelonious Monk tinha um jeito insólito de tocar piano com os dedos estendidos e parecia "batucar" nas teclas. O universo jazzístico não permitiu que preconceitos lhes impedissem de atingir o sucesso.  Como são vistos aqueles que, nas organizações, atuam de maneira diferente da "consagrada"?

Sonny Stit, saxofonista, segundo pares e analistas, poderia ser hoje reconhecido como um "monstro" sagrado do sax alto. Por que não o é? Simples: estava na contramão do sucesso. Primava pela qualidade de vida e, até morrer, não modificou seus ideais. É curioso como o discurso da excelência da qualidade de vida está em voga nas empresas há mais de 10 anos e, por incrível que pareça, poucos são os que a ele aderem. Optar por ele, assim como Stitt o fez, é dizer não ao reconhecimento do sucesso por outros, de dinheiro, de fama, de poder. Talvez este discurso ainda tenha outros tantos anos a percorrer até que as pessoas sejam estimuladas a rever seus próprios valores.

É claro que aqui não falamos de todas as estrelas do Jazz nem dos seus grandes feitos. Por mais que gostemos de falar deste assunto, a proposta do presente artigo é a de apresentar algumas das possíveis associações entre o Jazz e as empresas e, sem a pretensão de exauri-las, promover questionamentos que nos levem à reflexão dos modelos e comportamentos que ora adotamos no mundo corporativo. Não imaginamos soluções por não haver "verdades". As "verdades" mudam; assim como muda o mundo.

Existem muitos outros exemplos de possíveis associações. Algumas delas abordamos em nossas palestras e cursos; outras, preferimos que você mesmo as busque. Há muito conhecimento nas entranhas do Jazz. Há, no entanto, muito mais ainda que, sobre ele, nós, participantes do universo corporativo, devamos repensar.

*André Acioli é administrador, mestre pelo Coppead-Ufrj, consultor de empresas, professor universitário na Mackenzie Rio e chef fundador do Boteco do Conhecimento.

* Luiz Henrique é jornalista, economista, consultor de empresas, produtor, crítico e pesquisador musical de jazz e blues, além de chef do Boteco do Conhecimento.

Por: André Acioli & Augusto Uchoa




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