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Quem lê tudo está desinformado

Mais cedo ou mais tarde precisaremos limpar a vida do excesso de informação que nos tira do mundo real

Por | 25/11/2010

pauta@mundodomarketing.com.br

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Por Amalia Sina*

Quando acordo pela manhã, pelo menos duas certezas eu tenho. Uma é que não conseguirei atender todas as necessidades das pessoas com as quais irei conviver. A segunda é que serei metralhada por tanta informação que me sentirei pressionada a tentar absorver tudo que vier pela frente. Ainda assim, consciente de minha impotência, logo na mesa do café, abro o jornal enquanto ligo meu iphone. Se no jornal a notícia fica parada a espera de minha leitura, no iphone a informação começa a surgir freneticamente em todo tipo de caixas e pastas. O conteúdo vem desde  emails de endereços pessoais ou profissionais, passando pelas redes sociais, que de social não tem mais nada. Hoje em dia grandes e pequenos negócios são fecundados ali.

Eu não sou diferente de muitos viciados na vida turbulenta do excesso de informação. Tenho mais de 100 senhas e logins para entrada em diferentes sites que considero de suma importância, ainda que em alguns deles tenha entrado apenas para fazer o cadastro. Ainda assim, ostento orgulhosa um cadastro minucioso e detalhado de todos os dados, como se fossem um segredo fechado a sete chaves.

Não estou falando do acesso aos bancos, hoje em dia mais do que crucial, já que ir a agência se tornou algo fora de moda, perigoso e arcaico. Ainda assim, as operações por serem via internet exigem tanta informação que nos tornamos não apenas usuários qualificados em informática, mas principalmente reféns. Experimente prestar atenção ao seu humor, quando o sistema está fora do ar e você precisa fazer um pagamento imediato. Os bancos conquistaram os clientes com informação on line e não nego a importância de estar bem informado neste quesito, mas ninguém tem dúvida de que o excesso de informação nos sites destes bancos já ultrapassou o limite do bom senso. Dia destes ouvi um senhor de 85 anos contando que a gerente do banco lhe pediu que fornecesse o endereço de mail e que ele respondeu perguntando quem era esse tal de email. Fico imaginando como este octogenário se sentiu e concluo que deve ter se visto à margem da sociedade. 

Em adição, enfrentamos diariamente, informação que vem de todos os lados, como o facebook, o Orkut, tweeter, blog pessoal, linkedin além de dois ou três endereços de emails que temos que criar para receber ainda mais informação. As estatísticas dão conta de que 70% das mensagens de qualquer endereço de email hoje em dia é spam, ou seja, lixo eletrônico que não serve para quem recebeu. Tenho até dúvidas se é eficaz para quem disparou a informação. Mesmo tendo ciência de que nem sempre tiramos o melhor proveito destes pontos de contato, parece que se não os tivermos, estamos perdendo algo ou ficando para trás.

E ainda tem os jornais virtuais, atualizados a cada minuto, o que nos força a ter que saber o que está acontecendo no Iraque ou com uma celebridade do futebol. O tempo todo é preciso  estar alerta para não correr o risco de alguém perguntar sobre o assunto e você dizer que não está sabendo de nada. Como assim não está sabendo, se a informação está online? Dá a impressão de que saber o que está on line atualmente virou competição, ou seja, temos que ganhar não importando se temos conhecimento ou não sobre o tema discutido. Todos querem ter opinião sobre tudo, o que é pura imaturidade.

O que não falta é local para buscar e receber informação. É pressão constante. Basta parar no farol para receber um exemplar de jornal, que mesmo sem ter tempo para ler, aceitamos. Ora para ajudar a pessoa que entrega, ora para sentir que não desprezamos mais informação. Parece que não nos falta dados, porém, sem tempo para absorvê-los, não conseguimos criar conhecimento. Nossa leitura tem sido truncada, lemos em pedaços ou apenas passamos os olhos nos títulos das matérias. Quando não, folheamos jornais e revistas ao menos para ver as imagens, já que ler tudo não dá. Fica uma sensação de alívio e de dever cumprido. Puro engano.

Para piorar, as estatísticas apontam desinteresse da juventude pelos livros, os quais consideram textos longos e cansativos. Estão acostumados a ler basicamente o que lhes estimulam os olhos de forma acelerada, o que é o perfil típico dos computadores, iphone, ipod, ipad, ebooks, entre outras ferramentas que já circulam livre nas mãos dos jovens. Sem contar que, infelizmente, o Google tem sido o  principal companheiro das crianças ao fazerem as tarefas de casa. Não se trata de nostalgia, mas ainda me lembro quando os alunos buscavam na biblioteca os textos para compor seus trabalhos escolares. Este tempo ficou pra trás e deixou saudades. Se falta interesse pela leitura, sobra a neurose de querer estar atualizado com os últimos jogos da internet, daqueles que exibem interação on line com jogadores do mundo todo. Fica clara a desinformação sobre a importância da leitura continua para a criação e fortalecimento da cultura, que é a estrutura da sociedade.

Com base neste bombardeio de informação, tentamos ler tudo, com a ilusão de que estamos nos atualizando. Não paramos para selecionar o que devemos ler e o que nos ajudará no cotidiano e no futuro. Também sou vitima deste momento de excesso de informação, pois tento chegar em casa a tempo de ver o jornal de notícias na televisão, mas como a vida é corrida, nem sempre consigo. E quando é assim, nada como uma TV de última geração que grava o programa para eu ser bombardeada por ele mais tarde. Dia destes precisaremos limpar a vida do excesso de informação que nos tira do mundo real.

* Amalia Sina é reconhecida como uma das mais bem sucedidas executivas brasileiras de sua geração. Foi presidente da Philip Morris do Brasil, da  Walita do Brasil e vice-presidente da Philips para a América Latina. Com MBA em Marketing pela FEA/USP e Pós-graduada em Gestão pelo Triton College, Chicago, hoje comanda a sua própria empresa, a Sina Cosméticos. É autora dos livros "Mulher e Trabalho" e "Marketing Global - Soluções Estratégicas para o Mercado Brasileiro".

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