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Comportamento do Consumidor

Minha geração num jogo

Tradicional brinquedo dos anos de 1980 e 1990 mostra um comportamento de consumo já antiquado e que não cabe na realidade da atual sociedade

Por Alexandre Salvador - 22/06/2021

Na casa de praia dos meus sogros encontramos um Jogo da Vida da Estrela e resolvemos jogar: eu, minha esposa Ju e as meninas (de 7 anos). Jogando, fica claro o quanto o mundo mudou e algumas premissas básicas do comportamento social se transformaram radicalmente. Olhando com as lentes de hoje, algumas coisas são bem bizarras, mas explicam os valores que forjaram gerações.

Criado em 1962, o Jogo da Vida foi trazido ao Brasil em 1986 pela Estrela.

 


1) Você só existe de carro.
Você não entra no jogo da vida se não tiver um carro. Se você não tem carro, você está fora do jogo.

 
2) A carreira é escolhida cedo demais.
Na primeira rodada você escolhe se quer comprar o seguro do seu carro e se quer fazer faculdade.
A opção para quem não quer fazer faculdade é ir para o caminho dos negócios! (Imagina um professor de Administração jogando isso e explicando paras filhas de 7 anos que não é bem assim... não é, né?)
Faculdade que vale a pena é Medicina e Direito. Ser Jornalista, Físico ou Professor ainda vale alguma coisa. Fora disso é vala comum e você se pergunta se “precisava escolher o caminho da Educação?”. 

 
3) Você tem que casar.
Você não tem a opção de seguir no jogo da vida sem casar. É uma parada obrigatória. Logo depois de escolher entre seguir pelo mundo dos negócios ou terminar a faculdade você é forçado a casar. É parada obrigatória.
Pelo menos não está na regra que boneco azul coloca no carro boneca rosa, boneca rosa coloca no carro boneco azul. Mas desconfio que não é por que o jogo era prafentex... é que isso nem era uma discussão. 


4) O negócio é ser arrojado
Você não ganha o Jogo da Vida tendo uma boa carreira. Você precisa herdar uma fortuna do tio ou jogar nos cavalos.
A Isa, minha filha, me falou: papai, não adianta fazer o caminho longo, para ganhar tem que ter sorte! 


5) Você não precisa de estudo para ganhar um Nobel
Você roda a roleta e ganha um Nobel e $120.000,00. Não tem estudo científico? Não tem problema. Minha filha Isa ganhou o Nobel, eu não.

6) E se tudo der errado? 
No Dia do Juízo, além de vender cada filho por $48.000,00 você ainda pode abreviar sua existência na vida, apostar tudo para virar Magnata e imediatamente ganhar o Jogo da Vida.
E se você perder tudo e for a falência? E se você virar o maior derrotado do jogo?
Se tudo der errado, você perde todo seu dinheiro, SE APOSENTA E VAI SER FILÓSOFO!

7) Dinheiro é única métrica que importa
Não se olha para felicidade. Não se olha para o altruísmo. Não se olha para o bem comum. Quem forma mais riqueza ganha o jogo da vida.

O jogo é da década de 80 e, como um artefato arqueológico, retrata o comportamento e o pensamento dominante da época. Era a mesma época do Gordon Gekko e do Psicopata Americano. 
Espero que o Jogo da Vida atual permita tantas ramificações e jornadas felizes que não caiba em um tabuleiro. Mais colaborativo e menos competitivo. 

E para você, como está o seu Jogo da Vida? 
 

Por: Alexandre Salvador

Doutor em Marketing pela FEA/USP. Professor de custos de pós-graduação e MBA em Escolas de Negócio como ESPM e FIA. Palestrante na área de Marketing, Marca e Gestão da Mudança. Head de Marketing e Inovação na AB Brasil