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Home > Blogs > Diário das Classes C,D e E > “Maldito biscoito Trakinas”

Diário das Classes C,D e E

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“Maldito biscoito Trakinas”

Postado por Hilaine Yaccoub - 02/08/2012

A cada dia que passa me sinto mais próxima das pessoas com quem convivo na favela e seus problemas, muitos deles com raízes históricas profundas. Alguns moradores revelam que há muito tempo, antes de ser favela, a localidade era uma comunidade de fato, com todo o sentido que o termo denota. Faziam festas, organizavam eventos comunitários em dias festivos e feriados e, quando não tinham nada para fazer, simplesmente sentavam nas ruas com suas cadeiras, muitas vezes improvisadas, e ficavam horas e horas jogando conversa fora.

favela,trakinas,beco,festa,churrascoUm dos moradores mais antigos me relatou que esse tempo não volta mais, mas ao mesmo tempo não quer abandonar seu lugar, pois ali é sua referência de mundo e vida e está fora de cogitação simplesmente deixar tudo para traz: memória, história e biografia. Nem todos os moradores de favelas estão lá por falta de oportunidade. O lugar pode ter se tornado uma favela simplesmente, se verticalizou, foi se expandindo e o bairro improvisado foi ganhando outros ares, outras regras, outros comandos.

Dia desses, ouvindo uma conversa de uma moradora antiga, mãe de três filhos, dois deles ainda crianças, fiquei atenta para uma questão apontada por ela. Comentava junto a outras mães acerca da precocidade de crianças e jovens de se interessar em fazer parte das facções locais, interagindo com o tráfico; primeiramente, de forma pontual até se tornar uma prática corriqueira e, quando em pouco tempo, já passavam para aviões, fogueteiros, soldados, gerentes etc.

Fiquei imaginando o que faria com que essas crianças ingressarem no crime. Poder? Status? Tênis importado? Conseguir mulheres?

favela,trakinas,beco,festa,churrascoAi então ela solta uma frase que dá nome a este post: “A culpa disso tudo é o maldito biscoito Trakinas”.

Fiquei pensando com os meus botões como é que um biscoito pode ter tanta influência, ainda mais se tratando de algo tão sério.

Nesse momento vem o exercício antropológico da relativização. Para mim, para você e, possivelmente, para muitos leitores, o biscoito Trakinas é um lanche barato e rápido como outro qualquer; para uns, de sabor duvidoso, para outros, uma lembrança nostálgica da infância que ficara para traz. No entanto, para centenas ou até milhares de crianças e adolescentes de camadas populares, o biscoito Trakinas é a grande referência de sabor, de bom gosto, de vontade de comprar e consumir.

Sim, eles sabem que é APENAS um biscoito e que muitos podem consumi-lo a hora que quiserem, no entanto, para eles infelizmente não... Eles não têm acesso. Os pais se sentem pressionados e muitas vezes culpados, mas o que fazer? Restam apenas os biscoitos do tipo maisena de marca e procedência duvidosa.

O desejo por um simples biscoito reconhecidamente caro para esse grupo é o primeiro passo para que essas crianças façam pequenos servicinhos a fim de conseguir uns trocados para gastar ali mesmo, na favela, deleitando-se com o sabor explosivo doce e artificial de morango e chocolate, tudo isso embarcado pela carinha simpática do bonequinho que estampa o formato do biscoito. “Maldito biscoito Trakinas”.

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Biografia

Antropóloga, doutoranda em antropologia do consumo pelo PPGA/UFF. Desenvolve pesquisas de mercado, consultorias e ministra palestras na área de antropologia do consumo in company. Leciona antropologia do consumo, comportamento do consumidor, pesquisa etnográfica, métodos qualitativos de pesquisa na ESPM RJ (graduação e pós-graduação), referências de pesquisa e antropologia do consumo em pós-graduações da PUC Rio, Senai Cetiqt e Unilasalle. É viciada em histórias de vida e práticas de consuo das camadas populares (classes C, D, E), desenvolvendo pesquisas etnográficas com estes públicos. Gerencia o núcleo de pesquisa qualitativa da M.Sense Inteligência de Mercado, empresa de pesquisa e gestão do conhecimento do cliente. Idealizadora e escritra do CONSUMOTECA, um site de conhecimento (www.consumoteca.com.br). Contato: hilaine.yaccoub@msense.com.br

Este blog reflete única e exclusivamente a opinião do seu autor e não necessariamente o posicionamento jornalístico que norteia o Mundo do Marketing.

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