
Muitas vezes, quando conto para as pessoas que meu trabalho de campo para tese de doutorado está sendo realizado em uma favela não pacificada, percebo certa surpresa revelada em olhares, interjeições que deflagram sustos, estranhamentos e medos. Logo depois exaltam minha “coragem” (e um possível amor à profissão e à pesquisa) e também se indignam com minha escolha. “Como você foi para lá? Não tinha outro lugar pra pesquisar? O que seus pais acham disso?”
Esse questionamento e esses sentimentos oriundos dos outros me fazem lembrar meu papel de antropóloga e, por sua vez, tradutora de costumes e formas de expressões socioculturais. Devo lembrar a todo instante que tamanho estranhamento vai além de preconceitos. Na verdade, o que se tem é um olhar exotizado que foi construído e reproduzido ao longo de décadas, e que tem sido reafirmado por diferentes setores da nossa sociedade, desde a mídia até a política. Tais setores assumem planos e projetos que não condizem com o viver e pertencer a uma favela de fato.
Desse modo, cria-se uma identidade de favelado ligada à precariedade, malandragem, falta de escolhas, marginalidade, carência, ausência de normas, de cultura e de regras sociais. Esse imaginário acabou sedimentando-se em uma forma única de ver e julgar todo um grupo de pessoas que, na realidade, são plurais, diferentes e heterogêneas. São muitas favelas dentro da mesma favela e, dentro dessa lógica, são muitos tipos de pessoas dentro de um mesmo grupo.
Falando assim parece óbvio, mas não é o que percebemos na prática quando lemos jornais que nos dizem que os moradores de favela compram todos os eletrodomésticos que podem nas Casas Bahia (e se endividam) porque não pagam energia elétrica.
Ao alugar uma casa na favela, percebi que não é bem assim. Eu tenho “gato” de energia elétrica, de água e de internet porque tentei contratar o serviço regular e me foi negado. Eu, morando em uma favela, não tenho o direito de exercer minha cidadania de consumidora, de pagar por um serviço. E aí pergunta-se: como viver sem energia, água e comunicação nos dias de hoje? Como fazer?
Para além dos “gatos” e das gambiarras, eu acesso os arranjos técnicos, dou um jeito para fazer valer minha necessidade, meu interesse, minha vontade.
Muitos podem discordar e dizer que, mesmo se o serviço fosse regularizado, muitos moradores fariam as ligações clandestinas da mesma forma porque “está no sangue”, porque querem vantagem, porque são assim, está na “cultura deles”.
Essas justificativas são as que mais ouço quando trato desse assunto. Aí caímos novamente em dois pontos cruciais: as pré-noções baseadas em histórias únicas (sedimentadas e reproduzidas sem questionamentos) e a ideia de que a cultura não muda. Isso é uma inverdade. Costumo dizer em minhas aulas que, até um tempo atrás, quem usava minissaia eram as putas. Hoje, as filhas das classes médias fazem uso dessa peça de vestuário de forma deliberada. Se a cultura não muda... então, o que é?
A visão que se tem das favelas e de seus moradores é um tanto simplista, única, partidária e tendenciosa. Vivendo de perto e dividindo espaço com os moradores da favela tenho percebido outras nuances que estão guardados no campo do privado e que, de fato, não fazem parte do conhecimento público.
O conceito homogeneizador da favela acaba sendo, de fato, uma armadilha para o entendimento do espaço, suas regras, seu lugar social e mais – seus moradores-consumidores e suas formas de uso de coisas, serviços e produtos.
O consumidor moderno tem cada vez mais ciência de seu poder de compra e de seu direito de escolha. As empresas devem tratá-lo com dignidade, respeito e, sobretudo, atenção. Se não há essa relação estabelecida, ele simplesmente customiza, interfere, adapta para que sua necessidade ou seu desejo sejam atendidos da forma como entendem ser a ideal.
Nesse último sábado, fiquei simplesmente espantada com a quantidade de festas de aniversário que estavam acontecendo simultaneamente na favela. Fui convidada para uma delas com toda pompa e circunstância. Era um aniversário de criança com tudo o que se tem direito – cachorro-quente, pipoca, brigadeiro – e, claro, como não poderia faltar, um pratinho de comida que estava pra lá de bem servido. Dia de festa é dia de estrogonofe! Esse prato é a verdadeira tradução de dias especiais.
A festa foi muito animada e eu adorei participar. Logo no começo fui eleita fotógrafa oficial do evento. Esse título me oferecido porque eu portava uma câmera profissional grande e vistosa. Poses, pedidos de registro e alegria congelada em um clique. Essa estratégia me faz conhecer gente, chegar perto, trocar ideias e olhares sem parecer invasiva. Tudo em prol do registro do evento, logicamente.
Chamavam-me de gringa e assim me apresentavam. Minha cor de pele branca me denunciava. Uns brincavam com outros dizendo que eu não falava português – o que aguçava ainda mais a curiosidade e abria oportunidades para novos convites. Ouvi “Ela está fazendo um estudo sobre favela? Então ela precisa conhecer minha casa”.
Tanto pelas diferenças logo percebidas na parte externa das casas, uns diziam que apesar da falta de acabamento suas residências não se pareciam com “casas de favela” devido a sua beleza e a seu conforto. Eram nítidos a necessidade e o desejo de quebrar paradigmas e, de fato, revelar que ninguém ali é insano por morar em um lugar ruim, violento e insipiente, como mostra a mídia.
Alguns dos convidados viam em mim uma grande possibilidade de desabafo. Principalmente os mais idosos, que, por quererem ser ouvidos, apresentavam-me muitas lamentações e comparações com um tempo que não volta mais. Um tempo em que a favela era apenas uma invasão com cara de cidade do interior, não tinha a atual conjuntura instaurada – superpopulação, violência, infraestrutura precarizada, etc.
Em nenhum momento o tráfico é citado, mas está presente em suas falas de forma subtendida, como, por exemplo, “antes dos meninos era outra coisa”. “Meninos” é uma forma branda e eufemística para referenciar um grande problema para muitos moradores.
Quando perguntei se uma unidade da UPP seria, de fato, desejada ali na área, percebi uma total desaprovação. Segundo os moradores, a situação daqueles que moram em regiões pacificadas está muito pior que a deles. Há uma troca frequente de informações, formando uma verdadeira rede de conhecimento. Abuso de poder, humilhação, proibições descabidas são a tônica das áreas pacificadas. Situações que não são mostradas pela televisão traduzem o conceito real dessa politica de segurança pública.
Durante a festa, sentei-me próxima a duas moradoras da Mangueira. Duas negras belíssimas, com suas roupas tigradas, unhas decoradas e cabelos de aplique. Eram de parar o trânsito, como dizem. As aspirantes a passistas (título dado por mim durante nossa conversa, pois realmente fiquei muito embasbacada com tamanha beleza genuinamente carioca) são mães de filhos adolescentes que nasceram e foram criados na localidade. As duas contaram que, após a pacificação, vivem perturbações diariamente: “Nós vivemos um terror, um aborrecimento que a TV não mostra. Isso tudo que falam das UPPs é conversa! O que vivemos no dia a dia é um horror e não temos a quem recorrer. Somos reféns de policiais despreparados que andam armados, que abusam do poder com a gente. Somos revistados todos os dias como se fôssemos bandidos”.
E continuavam a falar: “Antes, quando tinha os meninos do movimento, a gente não mexia com eles e eles não mexiam com a gente. Havia um respeito. Eu mesma nunca sequer falei com eles. Não havia roubo na favela.
Quando havia qualquer confusão, ou eles resolviam, ou a confusão acabava antes mesmo de chegar aos ouvidos deles pra não dar problema. O povo se controlava. Mas agora é diferente, estamos sendo roubados! Antes, os bandidos que moravam na favela sabiam que não podia roubar, porque senão o tráfico dava um corretivo neles. Agora é diferente. Esse pessoal sabe o que temos dentro de casa. Eles entram e fazem a festa, nos roubam direto – TVs, dinheiro, DVDs, relógios e até micro-ondas.
Sabem que vai ficar por isso mesmo, pois a polícia não irá resolver nada. Tudo é muito mais burocrático, e os ladrões aproveitam essa burocracia toda pra agir. Para quem iremos reclamar? Para os policiais que acham que nós somos bandidos e nos revistam todos dias?”.
De fato, as duas moças tinham um discurso muito convincente, e elaboravam explicações plausíveis sobre o que viam e sobre as coisas das quais participavam. Elas discorreram sobre vários incidentes envolvendo policias.
Todos eles foram matéria de reportagens em jornais e revistas de grande circulação. Perguntavam sobre os casos e repetiam o ocorrido para logo depois contar o que, segundo elas, realmente tinha acontecido. Enfim, eram interlocutoras conscientes e informadas.
Uma situação me chamou atenção. As duas contaram que, em um dado momento (não muito distante), uma das policiais, arrumou uma discussão com uma das moradoras e as duas saíram no braço. Houve um desafio por parte da moradora que disse que se ela era mulher tirava o colete a prova de balas e resolvia tudo como mulher de verdade. Assim a policial agiu. Tirou o colete e se atracaram uma com a outra.
Parece que a policial levou a pior, apanhou muito e saiu machucada da briga. Foi assim que minhas novas amigas me contaram a história. Como é que uma policia dessas irá mudar a imagem que a corporação tem? “Essa história e outras coisas que acontecem não aparecem nos jornais nem na televisão.” – repetiu.
Segundo elas, o povo está cansado dos policiais que invadiram o espaço, recebem dinheiro de muitos traficantes (que continuam vendendo drogas na localidade), abusam da autoridade proibindo festas e bailes, e resolvem tudo com armas de choque. Os policiais se utilizam dos choques e sprays de pimenta para resolver qualquer discussão ou enfrentamento.
As falas empolgadas e verdadeiras das duas me mostraram que, de fato, é necessário relativizar tudo o que nos é mostrado. As marcas, empresas e companhias estão enlouquecidas, visionando as classes C e D. Com isso, procuram entrar no mercado que é a favela sob a influência da falsa sensação de segurança promovida pelas UPPs. Daí surgem algumas questões...
Será que há uma agregação de valor na união de uma marca (ou uma empresa, ou um projeto) a uma política de segurança pública que pode ser um fiasco proferido pelos próprios moradores?
O que esses moradores e consumidores pensam a respeito? Será que alguém perguntou? Será que algum pesquisador conviveu em áreas pacificadas para vivenciar tais questões?
Diante do que ouvi e sinto (e pressinto), talvez estejamos (e as empresas também) comprando ideias que nem sempre têm relação com a verdade. Vendem-nos cenários que compõem peças teatrais em que personagens são criados, tipos ideais de bandidos e mocinhos, salvadores e carrascos, inimigos e herois que talvez não tenham relação alguma com o que ocorre de fato.
A festa de aniversário continuou com crianças correndo pra lá e pra cá. Na hora de cantar parabéns, minha presença (e da câmera) é exigida perto da mesa do bolo. Preciso registrar o assoprar das velinhas. Bolo cortado, brigadeiros servidos e lembrancinhas distribuídas revelam, enfim, que é hora de partir.

Quando comecei a estudar antropologia e, mais especificamente, métodos de pesquisa qualitativa, como etnografia e observação participante, muitos professores e colegas pesquisadores orientavam a nos comportar da forma mais simples e neutra possível. A intenção era passar despercebido.
Assim, indicações sobre roupas, o que usar e como usar eram comuns. Cada grupo estudado, que na ocasião era nosso objeto de pesquisa, tinha um comportamento e, para interagir com ele, era preciso preparação. Levar ou não bloco de anotações? Levar ou não câmera? Usar ou não o gravador? Eram perguntas que não davam pra serem respondidas antes do “estar lá” e sentir o clima.
Lembro-me do filme “Xingu”, lançado há pouco tempo que narra parte da história dos irmãos Villas-Boas. Eles não eram antropólogos, mas estavam ali realizando um trabalho de campo, agiam como se fossem; eram indigenistas e realizavam pesquisas etnográficas, aprendiam a língua nativa, o entendimento da cabeça dos índios das mais variadas etnias. Como primeira aproximação, penduravam em varais, espalhados pela floresta, espelhos, facas e serrotes para que os índios pudessem pegar (como um presente) e em troca eles se aproximariam dos brancos; funcionou.
A experiência atual
Quando comecei a entrar e realizar pesquisas em favelas muitos me orientavam a usar roupas básicas, como jeans e camiseta, escolher a cor certa por causa das cores das facções, além de tantas outras regras, nada de celular, nada de câmera, nada de gravador, nada de papel. Pois bem... chego a conclusão, hoje, de que de fato nada disso tem sentido. Só quem está lá é que sabe como proceder, o que usar e até onde poderá chegar.
Na atual favela que realizo minha pesquisa não obedeci a nenhuma dessas tais regras, ou orientações. Não há disfarce. Fui sentindo o clima e a intuição foi me levando, comecei a tirar fotos pelo celular, logo usei uma câmera pequena, que agradou a muito os moradores, que vinham me perguntar se eu estava fazendo as fotos para alguma reportagem (me acharam com cara de jornalista!). Expliquei a situação: estava morando lá para fazer um trabalho para a faculdade sobre o que é morar e viver numa favela; a parte boa e a parte ruim e esperava que eles me contassem e mostrassem como era.
Pronto, sucesso total! Convites choveram. Aumentei o tamanho da câmera, levando para o campo a minha câmera profissional (imponente). O que antes havia pensado que seria complicado e perigoso passou a ser um ponto a meu favor, pedem para sair nas fotos, pedem para terem suas casas fotografadas. Sentimento de invasão? Nenhum pouco. Ainda estou pensando na razão para essa abertura toda, talvez o fato de ser mulher contribua para uma maior aceitação. O desenvolvimento do meu trabalho e a minha interação vem de forma natural. Ou até mesmo a transparência em dizer que a intenção é quebrar preconceitos e contar a verdade deles. A única coisa que tomo cuidado é deixar uma cópia das fotos na associação de moradores, por uma questão ética, todos são avisados e podem copiar, imprimir e enviar a foto como bem quiser.
Certa vez, indo encontrar uma moradora em sua casa para uma entrevista a vejo saindo pelo portão. Ela prontamente me diz que estava indo fazer algo urgente e não poderia me receber. Pergunto meio sem graça o que era e ela me disse que sua unha de acrigel havia quebrado. Ela estava indo naquele momento a uma manicure (na favela mesmo) reparar o dano. Adorei o sentido de “urgência” dela (o que eu não duvido, pois sou mulher e entendo perfeitamente) e com toda cara de pau do mundo pedi para ir junto. Ela topou. Saímos pela favela, entramos em uns becos, em uns corredores e chegamos à casa da manicure que trabalha em um salão chique da Zona Sul, sendo que nas segundas-feiras (seu dia de folga) atende em casa para tirar um ganho a mais.
Papo vai, papo vem e eu lá reparando na casa da manicure; TV de LDC, geladeira frost free, home theather... (olhar antropológico em ação), até que a mesma diz para minha entrevistada: “Ahhhh, nem... aqui não tem nenhum esmalte que seja a sua cara, só tem esses assim, ó, apagadinhos”. Mais que depressa pergunto para a manicure: “E como seria um esmalte com a cara dela?” Achei curioso termos a cara de um esmalte. Ela me respondeu: “Ah... um assim cheguei! Um bem divertido, pra cima, alegre como ela!”
Lembrei de um esmalte Revlon que havia comprado e não tinha coragem de usar por causa da cor laranja fluorescente. É nessa hora então que percebo a minha brecha. Disse para ela não pintar as unhas de cor nenhuma naquele momento, pois no dia seguinte eu lhe daria um esmalte importado que era, sim, a cara dela.
Bem, nem é preciso dizer que funcionou. E muito! A minha mais nova amiga agora tem unhas laranja que são, de fato, a cara dela. Alegre, vibrante e chamativa. E uma relação se iniciou ali. Ao invés de ser básica, ao invés de ser invisível ou neutra, ao invés de ser natural, tenho experimentado o oposto e tem dado resultado, pois quanto mais os outros sabem que sou de fora, quanto mais eles sabem que estou pesquisando, mais eles me deixam entrar em suas vidas. Ao invés de levar espelhos, serrotes ou facões, tenho levado esmaltes. Fico me perguntando se as índias não iriam gostar também... esmaltes vermelhos, azuis, laranjas.

A cada dia que passa me sinto mais próxima das pessoas com quem convivo na favela e seus problemas, muitos deles com raízes históricas profundas. Alguns moradores revelam que há muito tempo, antes de ser favela, a localidade era uma comunidade de fato, com todo o sentido que o termo denota. Faziam festas, organizavam eventos comunitários em dias festivos e feriados e, quando não tinham nada para fazer, simplesmente sentavam nas ruas com suas cadeiras, muitas vezes improvisadas, e ficavam horas e horas jogando conversa fora.
Um dos moradores mais antigos me relatou que esse tempo não volta mais, mas ao mesmo tempo não quer abandonar seu lugar, pois ali é sua referência de mundo e vida e está fora de cogitação simplesmente deixar tudo para traz: memória, história e biografia. Nem todos os moradores de favelas estão lá por falta de oportunidade. O lugar pode ter se tornado uma favela simplesmente, se verticalizou, foi se expandindo e o bairro improvisado foi ganhando outros ares, outras regras, outros comandos.
Dia desses, ouvindo uma conversa de uma moradora antiga, mãe de três filhos, dois deles ainda crianças, fiquei atenta para uma questão apontada por ela. Comentava junto a outras mães acerca da precocidade de crianças e jovens de se interessar em fazer parte das facções locais, interagindo com o tráfico; primeiramente, de forma pontual até se tornar uma prática corriqueira e, quando em pouco tempo, já passavam para aviões, fogueteiros, soldados, gerentes etc.
Fiquei imaginando o que faria com que essas crianças ingressarem no crime. Poder? Status? Tênis importado? Conseguir mulheres?
Ai então ela solta uma frase que dá nome a este post: “A culpa disso tudo é o maldito biscoito Trakinas”.
Fiquei pensando com os meus botões como é que um biscoito pode ter tanta influência, ainda mais se tratando de algo tão sério.
Nesse momento vem o exercício antropológico da relativização. Para mim, para você e, possivelmente, para muitos leitores, o biscoito Trakinas é um lanche barato e rápido como outro qualquer; para uns, de sabor duvidoso, para outros, uma lembrança nostálgica da infância que ficara para traz. No entanto, para centenas ou até milhares de crianças e adolescentes de camadas populares, o biscoito Trakinas é a grande referência de sabor, de bom gosto, de vontade de comprar e consumir.
Sim, eles sabem que é APENAS um biscoito e que muitos podem consumi-lo a hora que quiserem, no entanto, para eles infelizmente não... Eles não têm acesso. Os pais se sentem pressionados e muitas vezes culpados, mas o que fazer? Restam apenas os biscoitos do tipo maisena de marca e procedência duvidosa.
O desejo por um simples biscoito reconhecidamente caro para esse grupo é o primeiro passo para que essas crianças façam pequenos servicinhos a fim de conseguir uns trocados para gastar ali mesmo, na favela, deleitando-se com o sabor explosivo doce e artificial de morango e chocolate, tudo isso embarcado pela carinha simpática do bonequinho que estampa o formato do biscoito. “Maldito biscoito Trakinas”.



Interessante perceber como existem classificações e disputas dentro de um mesmo grupo e/ou comunidade. No caso da favela em que estou morando uma rixa é clara, entre os estabelecidos, cariocas que são locais desde a gênese da favela, e os outsiders, moradores que chegaram na área posteriormente oriundos do nordeste, chamados de conterrâneos pelos locais.
Essa diferenciação e disputa local não são claras logo no primeiro contato. É preciso a convivência diária, ouvir os vizinhos e suas reclamações; é preciso estar lá para perceber essas questões que estão dentro do campo tácito.
Os chamados “conterrâneos” são culpados de tudo, são acusados por terem aumentado demasiadamente as construções e verticalizado a favela, acarretando problemas de insalubridade por falta de sol e de acesso à água e esgoto, que não suporta tamanho crescimento. Além de tudo, são acusados de não se misturarem, de serem individualistas por apenas pensarem em benefício próprio ou sectaristas; se envolvem por problemas que sejam comuns ao seu grupo, ou seja, de conterrâneos que primam pelos mesmos objetivos, valores, vivências. E, para piorar, são acusados de terem destruído na favela o sentimento de família e comunidade numa época remota e nostálgica em que todos conheciam as famílias dos outros, ancestrais, descendentes, todos unidos, partilhando tudo, festas, comida, diversão e sofrimento.
Por outro lado, esses nordestinos são extremamente focados, empreendedores, “raçudos” mesmo. A maior parte do comércio local está nas mãos deles, têm um sorriso solto, são mais desconfiados sim, mas uma vez entrando em seu círculo de confiança, pronto, você os ganhou. E pode contar com eles para tudo, para ajudar na mudança e carregar peso, fazer uma faxina, ou então sentar num bar e comer até se fartar. São extremamente cuidadosos com os filhos, que são proibidos de andar sozinhos pela favela, os pais levam e buscam na escola, lutam por uma boa educação. É como se estivessem dentro do universo da favela, usufruíssem dele, mas não fizessem parte dele. Não se envolvem em campanhas, não se misturam em dias festivos, não partilham nada, nem positiva nem negativamente.
Até mesmo nos momentos de lazer essa separação é evidente: de um lado da praça o samba come solto, os cariocas (grande parte negra) sambam, se divertem, cantam, paqueram... Enfim, aquele pagodão de mesa bem característico do Rio de Janeiro. Do outro lado da praça, mais próximo aos brinquedos infantis, encontram-se os nordestinos, sentados à mesa com suas famílias, vigiando as crianças que brincam nos aparelhos montados (balanço, pula pula, etc) e ficam ali, comendo, conversando ao som do sertanejo universitário e forró (de uns cantores que não conhecemos, mas que fazem parte de um circuito Norte/Nordeste). Quase não há negros no grupo dos nordestinos, mas sim muitos “cabeças-chatas” como eles mesmos se autodenominam.
É notório que os nordestinos têm um compromisso e uma fome de vencer, de sair da mesmice, são extremamente empreendedores e levam o trabalho tão a sério que muitas vezes são motivos de chacota na favela, como se não se divertissem. Suas casas são em sua maioria bem cuidadas, e abrigam muitas outras famílias. É muito comum que na favela os familiares, parentes e conhecidos passem um tempo nas casas dos nordestinos já estabelecidos até se fazerem no Rio. Uma vez, um morador (carioca) me disse “O problema daqui são os conterrâneos, eles são igual aquele filme, em que jogava água no bichinho e quando vê já tem uma dezena deles!” (fazendo alusão aos “Gremilins”).
Morar e viver na favela é fazer parte de tudo isso: conflitos, disputas e classificações. É aí que está a magia do fazer antropológico, perceber e partilhar desse contexto todo, interagindo e observando esses modos de ser, usar, consumir.




Muita gente toma minha empreitada como algo super exótico, inusitado ou insano. Ou desconhecem os muitos antropólogos indigenistas que, para elaborarem seus estudos e traduzirem as mais variadas etnias, fizeram como eu, foram morar lá. Como assim fazer trabalho de campo em uma favela? Sim, a questão é que, se eu quero contar como é viver e morar em uma comunidade (ou favela, como prefiro), preciso vivenciar tudo que envolve esse “estar lá”.
Obviamente que a favela tem lá as suas deficiências e isso não é novidade para ninguém. Está o tempo todo estampado nos jornais, nas revistas, nos programas de TV. Há violência, há falta de água, de luz, de limpeza; os serviços não chegam a todos os pontos da localidade e percebem-se ilhas onde os moradores simplesmente se viram para dar conta das necessidades básicas. Há locais miseráveis, outros nem tanto. Ratos e baratas convivem com muitos desses moradores.
Mas e a outra parte? Será que todas essas pessoas moradoras de favelas moram lá por pura falta de condições de escolher um lugar melhor? Será que é sempre ruim? Será que morar na favela tem um lado bom? Essas são as perguntas que me faço e começo a investigar. O que pude perceber é que há também locais com bastante conforto e facilidades como qualquer outro bairro regular. Existem ruas onde se encontra a elite local, com casas de vários andares, churrasqueiras, terraços para lazer. Carros são uma realidade local, muitos moradores os possuem e pagam estacionamentos rotativos locais para guardá-los.
No entanto, prefiro focar em outras questões quanto ao prazer de estar/morar em uma comunidade.
Estando lá percebo uma felicidade de muitos que estabeleceram raízes naquele espaço, nasceram e foram criados naquela favela, temem ser retirados do seu habitat quando falam de programas de urbanização do governo. Sentem-se bem, existe um meio próprio de sobrevivência, de diversão, de consumo.
Não, nem tudo é mazela quando se trata de favela. (rimou!)
Estar lá me diverte, assim como encontro muitas gargalhadas na praça que se transforma em um pólo gastronômico às sextas, e mais ainda por me relacionar com o diferente, quebrar paradigmas e estereótipos. Aprender a viver e a morar numa favela é, sem dúvida, uma lição que possivelmente carregarei para o resto da vida.
Sexta-feira totalmente desprovida de recursos, ou, como dizem, sem estar com um “puto” no bolso, porque o caixa 24h local estava sem dinheiro, fui até a praça falar com o pessoal da associação de moradores. Tinha bastante movimento e eu queria registrar o entretenimento local. Passando por uma barraca de batata frita, a vontade apertou, estava com uma cara ótima. Aquele cheiro inebriante me seduziu na hora. Mas como comprar? Desisti. Cumprimentei o proprietário, um rapaz de 30 anos que eu conhecera naquela tarde. Ele é vigilante, casado, com dois filhos e nos finais de semana coloca a barraca para fazer uma grana extra. Passando por ele, ganhei um alô ligeiro e um sorrisão, apesar de estar ocupado fritando suas batatas dava pra perceber que estava feliz, contente com seu negócio. Depois de algum tempo ele chegou com uma quentinha enorme de batata frita e linguiça calabresa e me entregou! Fiquei surpresa. “Isso aqui é pra você experimentar o meu produto”. Sim, ele soube cativar uma cliente.
A favela é assim, as pessoas te surpreendem com gentilezas, com valores de sociabilidade, que as grandes cidades esqueceram. Morar numa favela tem um “quê” de cidade pequena, onde todos se conhecem, todos se falam e todos sabem da vida um do outro. Privacidade e invisibilidade são palavras que não pertencem aquele espaço.
Um “gringa” na favela: como sou percebida
É de conhecimento geral a minha pesquisa de doutoramento, a associação de moradores já se encarregou de falar sobre isso, assim como também muitos interlocutores que venho formando e “arrebanhando” para meu trabalho.
Quando me veem tirando fotos perguntam se é para reportagem, explico o que é com toda paciência e ainda me convidam para ir a suas casas. Pego o nome, telefone e vou fazendo meus contatos todos.
Eles se interessam por me ajudar a “mostrar a realidade” (como me disse uma senhora dona de casa moradora antiga), não aguentam mais as caricaturas e estereótipos existentes do morador de favela (muitas vezes paradoxais): miserável, vítima, aproveitador, malandro, marginal, trabalhador. Eles são e não são tudo isso.
Assim como todos os outros, nós, moradores da Zona Sul, Zona Leste, Zona Oeste, que podemos ter todas essas características (miserável, vitima, aproveitador etc.), dependendo do contexto em que estivermos; tudo é relacional. Um dia somos o mocinho, no outro dia somos o bandido.
Segue a foto do meu novo amigo, fritando suas batatas.


Enfim terminei a mudança para a favela nesse sábado. O que percebi foi uma curiosidade dos vizinhos e transeuntes, olhares atentos a todos os movimentos de carrega, sobe, desce, arruma, leva e traz. Alguns brincaram com o esforço em vão quando as panelas acabaram caindo da minha mão. “Está chovendo panela?” - brincou um senhor passando por mim.
Outro, o vizinho da frente, um português ainda com sotaque carregado, apesar dos seus 50 anos de Brasil, sendo 42 deles vividos na favela, chamou a minha atenção para o carro parado na frente da nova residência: “Olha, é melhor vocês tirarem logo esse carro, porque os meninos lá não vão gostar nada disso”. Leia-se meninos = traficantes locais.
Mais que depressa abro a mala do carro para mostrar o botijão de gás dentro. Serviços de entrega??? Não conhecia e os meus contatos da localidade também não. Lá fomos nós, eu e meu parceiro de pesquisa carregar escada acima aquele peso todo.
Arrumada a casa, itens em ordem, primeiras compras (suprimentos) devidamente armazenados, lá fomos nós descobrir como instalar os serviços. Na pequena favela (cerca de 22 mil habitantes), existem duas lojas de construção que são referência para todos os tipos de serviços. Ao entrar em uma delas perguntamos sobre o valor da antena de TV, afinal de contas, ficar sem televisão nesse momento não dá. O papo principal do salão, dos vizinhos está relacionado com a novela, com o fantástico etc. Chegando à loja, papo vai, papo vem, comento com o proprietário, um senhor de meia idade muito atencioso e solícito, que logo percebeu que eu era um peixe fora d´água, que gostaria mesmo era de uma TV a cabo (na verdade eu queria testar a resposta).
Mais que depressa ele nos disse: “Ah, mas vocês tão querendo os gatos todos?!” - fiquei curiosa, “gatos todos”? O que seria?
Logicamente que insisti, ri um pouco e perguntei de forma solta e engraçada, “gatos todos? Como é isso?”. Ele mais que depressa perguntou meu endereço e disse que o Roger é quem cuida da minha área e, detalhe, era com ele eu trataria dos “gatos” de internet, de TV, de luz etc. “O Roger é o cara!”, pensei.
Agora me encontro à espera do famoso “profissional” responsável pela minha área, para resolver todos os problemas da minha vida. Fácil assim... tudo com a mesma pessoa, sem precisar ligar, esperar, explicar, ser transferida para outro atendente, e outro, e outro, explicar tudo novamente, anotar protocolo, agendar visita, ficar presa o dia todo esperando o técnico, torcer para a conta e o pacote não virem errados. É, realmente, morar e viver na favela tem, sim, pontos positivos e esse com certeza é um deles. E viva o Roger!
Impressionante como ainda encontramos na sociedade lugares específicos para os diferentes gêneros, homens e mulheres. Obviamente que nas camadas populares isso não poderia ser diferente. Tanto no bairro popular, que residi por 8 meses na região metropolitana no Rio de Janeiro para a realização da pesquisa que culminou na minha dissertação de mestrado, quanto na favela escolhida para o trabalho de campo da tese de doutorado. Salões e bares imperam. Eu mesma frequentei um salão de beleza semanalmente para dialogar e entender o universo das mulheres locais.
Interessante observar que há tantos salões quanto bares, e estes são bastante movimentados quintas, sextas e sábados. Ou as mulheres se arrumam para curtir (lindas) o fim de semana, ou só tem esses dias para se prepararem para a semana de trabalho seguinte. Afinal de contas, elas precisam estar impecáveis tanto para o lazer quanto para o trabalho. E essa é uma norma inquestionável.
No salão elas estabelecem vínculos, conversam e desabafam. É a famosa “conversa de salão” - nome de um programa de TV da GNT inclusive - que ocorre e acaba sendo uma válvula de escape; cuidam da aparência, da beleza e cumprem a “sua obrigação”, porque, para elas, cuidar da aparência é uma obrigação e não uma simples escolha ou opção. Essa proximidade faz com que ocorram conversas íntimas como em consultórios de psicólogos. Não existe a psicologia de bar? Pois é, existe também a psicologia de salão.
Neste lugar de intimidade, o salão de beleza, lágrimas e gargalhadas estão presentes. As profissionais tornam-se amigas de suas clientes, há um gosto e um respeito pela relação estabelecida com regras de fidelidade e lealdade como qualquer relação de afeto. Ali, naquele lugar, a mulher se despe, fica feia pra ficar bonita, sofre para atingir a perfeição, pelos arrancados, puxões e ardidos são sentidos, tudo em prol do objetivo final: parecer mulher.
As camadas populares veem nos cuidados da aparência além do embelezamento supérfluo. Existe uma linha muito tênue entre a busca da beleza, a potencialização da feminilidade e o compromisso com a política da boa aparência (“eu sou pobre, mas sou limpinho”).
A pobreza diretamente ligada à limpeza é uma máxima que persiste e que está no inconsciente coletivo. Além da limpeza doméstica com uso de produtos de primeira linha estar bem apresentado, ter roupa pra sair, ter perfume certo para cada ocasião, usar a melhor maquiagem e o melhor sapato quando se está em público é uma constante que vem se reproduzindo a várias gerações. Essa forma de usar produtos, vestuário, de se estabelecer regras para seus usos, são desenvolvidos, reproduzidos e ensinados, aos filhos, aos parentes, aos amigos, aos vizinhos.
A busca por essa potencialização da beleza, através de unhas enormes, muito bem feitas e pintadas com cores vibrantes, assim como cabelos muito bem cuidados, pintados, longos, alisados, as peles sedosas e brilhantes, devido ao uso de cremes hidratantes, faz parte do figurino desta construção do corpo feminino, ou seja, são necessidades simbólicas que traduzem o que é ser mulher. As roupas, por sua vez, complementam esse ser feminino; flores, estampas, cores de mulher, como rosa e vermelho, além de toda gama de cores quentes, enfim, a mulher quer parecer mulher. Esse parecer mulher dessa forma é uma construção cultural em nossa sociedade.
Essa busca por ser e parecer mulher me faz parar para pensar um pouco sobre o esforço que é para conquistar e manter este status em nossa sociedade. Há uma famosa frase da Simone de Bevoir, muito utilizada pela antropóloga Mirian Goldenberg, minha professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que traduz e revela que ser mulher é uma construção cultural e não natural. “Não se nasce mulher, torna-se mulher.”
De fato, o sexo está entre as pernas e o gênero está entre as orelhas. Nossas experiências vividas, aprendidas e reproduzidas nos dizem ser quem somos, nos classificam e junto delas vêm as obrigações relacionadas a cada grupo. Pra ser mulher, portanto é preciso muito mais do que nascer mulher em nossa sociedade.
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O código que se impõe ao usuário do bairro ou favela é chamado de “conveniência”, e possui duas leituras. Revela-se pela maneira de apresentar-se perante a sociedade, o que veste, como se comporta, entre outros fatores que reafirmam e legitimam praxes e usos estabelecidos. De outro lado, “o léxico dos benefícios”, a conformidade com o sistema de regras. Moradores de favelas e de muitos bairros convivem com duas moralidades, que muitas vezes se opõem.
O historiador Michel De Certau, ao tomar o cotidiano como objeto de estudo, aponta que essa conveniência estabelece leis, regras de condutas que devem ser obedecidas, ou, como ele aponta, “regras do uso social” que auxiliam “no jogo dos comportamentos”, impondo uma
"...justificação ética dos comportamentos, que se poderia medir intuitivamente, pois os distribui em torno de um eixo organizador de juízos de valor: a “qualidade” da relação humana tal como ela se desenvolve nesse instrumento de verificação social que é a vizinhança não é a qualidade de um ‘know-how social mas de um “saber-viver-com”; à constatação do contato ou do não contato com este outro que é o vizinho...sem somar-se a uma apreciação, uma fruição desse contato". (DE CERTEAU, 2008, p.49)
O autor afirma que, nesse momento, entra-se no terreno do simbólico, onde todas as relações são “regulação interna dos comportamentos como efeito de uma herança”, seja ela afetiva, política ou econômica. O lugar é o palco dos usos estabelecidos por esses usuários que possuem essa ligação, compulsória ou não, mas que existe e é obrigatoriamente exercitada. “A conveniência é o rito do bairro”, cada usuário (ou consumidor) se submete às suas regras em prol da boa convivência, manutenção do relacionamento, no qual há trocas. Muitas vezes, são relações tão próximas que chegam a ser comparadas a parentais.
Trazendo essa teoria para o tema dos usos dos serviços públicos essenciais, por exemplo a energia elétrica, temos uma herança instaurada, seja no bairro, em uma favela, em uma vila, dentro de uma casa: o da manipulação da energia elétrica. A ligação clandestina popularmente conhecida por “gato” se consolidou, por décadas, pelas “maneiras de usar”, pautadas na permissão conferida pela estrutura hierárquica estrutural brasileira, de apropriação do público que não tem dono (a rua) pelo privado (a casa). Luis Dumont, em Homo æqualis (2000), destaca que, na ética das sociedades hierárquicas, o valor do indivíduo e suas necessidades estão sempre submissos aos valores e interesses da sociedade. Nas sociedades individualistas, o indivíduo impõe suas necessidades e valores acima dos interesses do todo. As pessoas agem a partir de uma lógica privada, sem se importar com o ônus dos outros, que terão ao pagar pelos “gatos” deles.
No entanto, ao entrar no universo das favelas, onde a universalização do serviço realizado pelas concessionárias é precária por vários motivos, como falta de segurança que deve ser garantida pelo Estado, assim como também pouco interesse comercial das próprias concessionárias na regularização dos serviços temos outras questões para se pensar. O “gato” vira arranjo técnico, uma saída emergencial para a garantia do uso de bens e serviços. Como questionar, criminalizar, ou até mesmo classificar este fenômeno dada as condições naquele contexto?
Mesmo não partilhando moralmente dos contra-usos, dos “gatos”, me vejo atualmente com este dilema, para ter internet, energia elétrica ou água potável, ou eu recorro aos “gatos” e toda sua rede de técnicos comunitários ou simplesmente vivo sem os serviços essenciais que são direito de todo cidadão. Lidar cotidianamente com esta realidade me faz enxergar que é preciso sobretudo relativizar classificações. O “gato” para cidade formal (o bairro por exemplo) é a extensão de rede que muitos possuem na favela, produzidas pelos eletricistas (ou curiosos) locais com a simples finalidade de fazer garantir um direito que lhes é negado, ser consumidor.
Referencias Bibliográficas utilizadas:
CERTEAU, M. De. GIARD, Luce; MAYOL, Pierre. A invenção do cotidiano 2 : morar, cozinhar. Petrópolis, RJ, Vozes, 2008.
DUMONT, Louis. Homo Aequalis. Gênese e plenitude da ideologia econômica. Bauru, EDUSC, 2000.
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Antropóloga, doutoranda em antropologia do consumo pelo PPGA/UFF. Desenvolve pesquisas de mercado, consultorias e ministra palestras na área de antropologia do consumo in company. Leciona antropologia do consumo, comportamento do consumidor, pesquisa etnográfica, métodos qualitativos de pesquisa na ESPM RJ (graduação e pós-graduação), referências de pesquisa e antropologia do consumo em pós-graduações da PUC Rio, Senai Cetiqt e Unilasalle. É viciada em histórias de vida e práticas de consuo das camadas populares (classes C, D, E), desenvolvendo pesquisas etnográficas com estes públicos. Gerencia o núcleo de pesquisa qualitativa da M.Sense Inteligência de Mercado, empresa de pesquisa e gestão do conhecimento do cliente. Idealizadora e escritra do CONSUMOTECA, um site de conhecimento (www.consumoteca.com.br). Contato: hilaine.yaccoub@msense.com.br
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20/03/2012 | 00:09:05
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