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O preço mínimo e o princípio da reciprocidade

Nas sociedades baseadas em princípios de qualidade e excelência, não se cogita fazer determinado trabalho por menos do que ele vale

Por Paulo Ferreira, do Mundo do Marketing | 26/10/2009
marketing@mundodomarketing.com.br


Por Paulo Ferreira*

A frase é bíblica e o princípio é tão simples que qualquer criança entende: não faça aos outros aquilo que você não quer que façam a você. A dificuldade de colocá-lo em prática, entretanto, continua assombrando nossas vidas há milênios. Inclusive a vida das empresas, as relações de mercado, a lei de oferta e procura e a economia como um todo.

Sempre que alguém diz que não ganha tão bem quanto deveria, me sinto tentado a perguntar “da última vez que o encanador te deu um orçamento, até que ponto você espremeu o preço?”. Do mesmo modo, sempre que um empresário fala da dificuldade em encontrar pessoas comprometidas, profissionais em nível de excelência, que façam mais do que o mínimo indispensável, sou tentado a perguntar “e quando foi a última vez que sua empresa concedeu um aumento que era mais do que o mínimo indispensável?”

Sim, é o princípio da reciprocidade em ação. Infalível. Mais cedo ou mais tarde, você tem de volta exatamente o que entrega. Sempre vai ter o mínimo indispensável dos funcionários a quem você paga o mínimo indispensável. Mas a explicação disso pode ser bem menos nobre do que parece à primeira vista: numa sociedade permanentemente obcecada com a idéia de “pagar menos”, você está inserido como consumidor e também como fornecedor.

Nas sociedades baseadas em princípios de qualidade e excelência, não se cogita fazer determinado trabalho por menos do que ele vale. Não se cogita trabalhar horas extras não-remuneradas. Não se cogita desvalorizar o trabalho do seu semelhante, porque na volta, isso vai desvalorizar o seu próprio trabalho. E aqui cabe uma ressalva importante: isso vale para os seus semelhantes, aqueles a quem você se compara e em quem se reconhece. Por isso, o princípio muitas vezes não é aplicado aos imigrantes dos países pobres: não se reconhece reciprocidade entre os que não são iguais. Mais ainda quando se trata de imigrantes ilegais: alguém que está ilegalmente num país deve esperar passar por abusos ilegais: novamente, é o princípio da reciprocidade em ação.

Mas voltando ao tema: nas sociedades que realmente valorizam qualidade e excelência, não apenas o fornecedor não aceita ter seu preço aviltado: o consumidor espera um determinado preço e uma determinada qualidade condizente. A simples idéia de barganhar indefinidamente com um profissional deveria ser abominada pelos profissionais de serviços, todos eles. Mas pergunte a um publicitário brasileiro se ele não vai barganhar com o arquiteto ou o encanador na hora de comprar serviços - como um bom filho da nossa sociedade do preço mínimo, ele vai. E depois sofrerá exatamente a mesma situação na hora de negociar seu salário.

Este é o resultado de viver numa “sociedade do preço mínimo”, obcecada por pagar menos e pela vantagem imediata do comprador. Esta é a sociedade e a economia que construímos para o nosso país. E as nossas exceções somente confirmam a regra: na hora de definir qual seria o médico a realizar a operação cardíaca do seu pai, você não iria ficar tão obcecado pelo preço mínimo, certo?

Portanto, antes que possamos participar verdadeiramente do grupo de nações que lidera a economia ou criar impacto mundial com produtos e serviços que nascem da criatividade e da inovação, do trabalho intelectual de indivíduos e equipes de alto nível; temos que resolver o círculo vicioso criado pelas nossas “caríssimas” - em vários sentidos - filosofias do “preço mínimo” e sua companheira constante, a filosofia das famosas “soluções caseiras”.

Somente quando estivermos dispostos a considerar qualidade e excelência como valores reais pelos quais devemos pagar diferenciadamente poderemos exigir este tratamento para nossos produtos e serviços. É o princípio da reciprocidade. Nunca falha.

* Paulo Ferreira é publicitário, escritor, roteirista, músico e compositor, atua como consultor especialista em Gestão Estratégica de Negócios; é editor-contribuinte do All Music Guide e consultor de imagem e comunicação da Wasaby Innovation.

Comentários [2]
Paulo Ferreira

Respondendo ao Celso Luiz: As leis de oferta e procura são de fato bastante conhecidas de todos, e não se trata de discutir esse princípio tão básico, mas sim de ir um pouco além da constatação simples, porque é só questionando o estabelecido que conseguimos progredir. O ponto central do meu artigo está na concepção de VALOR. Defendo que nossa economia está por demais baseada na visão imediatista e na vantagem de preço no curto prazo. Para usar um exemplo bem simples, Celso: se você quisesse comprar uma Ferrari pagando o preço de um Uno Mille, isso não seria possível - e todo mundo entende isso porque é um bem de consumo físico que tem determinadas tabelas e custos associados. Mas quando tentamos transportar essa idéia tão simples para o mercado de serviços especializados no Brasil, a questão fica muito mais complicada. No setor de comunicação e eventos, por exemplo, muitas empresas-clientes estabelecem preços que não são compatíveis com os serviços que desejam comprar; as empresas do setor são muitíssimo menores que seus clientes e necessitam prestar serviços a estes clientes, por uma questão básica de sobrevivência, por isso acabam entregando serviços com margem abaixo do que deveriam, e não raro, sem margem, apenas para "manter a máquina rodando". Isso resulta em baixos salários, excesso de carga de trabalho para os que estão nas empresas e impede a geração de empregos formais. Isso resulta em impedimento para o desenvolvimento adequado do mercado.
Essa é a filosofia do preço mínimo - que bloqueia o desenvolvimento das atividades econômicas e cria números vazios: estimo que o mercado de comunicação no Brasil, por exemplo, produz, em termos de trabalho intelectual, cerca de cinco a seis vezes mais do que efetivamente vende. E quem você acha que paga a conta por todo esse trabalho que não gera receita? Várias partes pagam por isso: o cliente que gera receita, que acaba onerado; os profissionais que trabalham na empresa, que fazem o trabalho de três pessoas e recebem menos do que seria justo por isso; as pessoas que não conseguem entrar no mercado de trabalho porque há profissionais trabalhando por três e recebendo o salário de um só. E, no compto geral, compromete a nossa capacidade de inovação e de produzir em alto nível: embora tenhamos talentos pra isso, a economia do preço mínimo nos bloqueia neste sentido.
Espero ter contribuído com a minha resposta; talvez a realidade do segmento econômico no qual você atua seja mais consolidada e regulamentada, mas no setor de serviços, e especialmente no de serviços intelectuais especializados, essas realidades do preço mínimo e da filosofia do curtíssimo prazo representam um cenário predatório para o desenvolvimento brasileiro.

Colaborador do Mundo do Marketing | Wasaby Innovation | 27/10/2009

CELSO LUIZ ALVES BRAGA

Talvez eu esteja sendo primário em minha observação, ou o Sr. Paulo Ferreira não foi feliz em alguns exemplos propostos para justificar sua tese. Mas, ao que sei desde que existe o comércio, existe a negociação, o comprador sempre buscará a condição mais vantajosa ou mais próxima à sua necessidade; e no mercado, profissional ou não, ninguém faz o que não pode, se alguém nos faz uma proposta seja ela factivel ou absurda, cabe ao ofertante saber até onde ele pode chegar. Agora se ele adaptar o serviço/produto ao preço fechado, porque não soube negociar, ai sim, acredito que continuaremos agindo amadoramente, e defenitivamente fora do tempo que estamos vivendo.

GERENTE NACIONAL DE VENDAS | GIASSI IND. COM. DE CONFECÇÕES LTDA. | 26/10/2009

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